Parte I

Civilizações em tempos

Do tempo de que se diz que é como rio, que corre sempre novo embora jamais saia de seu leito onde o próprio tempo transcorre. 

É muito interessante pensar que o berço das grandes civilizações que nos são conhecidas do período da Antiguidade possa ser compreendido, não somente quanto à ideia de que se refere a uma região no mundo, mas também ser uma visão de mundo que percebe uma relação de eventos nos ciclos de chuvas que se tem à vida ribeirinha, vivendo o ser humano o que se denominaria de “paraíso” junto a pequenos e a grandes cursos d’água, porque, afinal, alguns dos primeiros povoamentos humanos dos quais restaram vestígios desse evento, tiveram artefatos que indicavam uma necessidade implícita de permanência dos indivíduos em um dado lugar com algum ânimo definitivo de se instalar mais fixamente em um novo modo de vida, isso se pensarmos a passagem entre o modo de vida nômade, comuns a homens primitivos coletores e caçadores, para um modo de vida sedentário em que o ser humano se desenvolveu em civilizações. Não parece ser coincidência que o berço das civilizações da Antiguidade tenha se dado às margens de grandes rios: deixando de se deslocar em busca do alimento, o ser humano primitivo tinha acesso mais facilitado à fonte de água em torno da qual animais e a vegetação eram mais presentes e abundantes, fornecendo os meios para uma vida nas regiões ribeirinhas, onde o ambiente de vida abundante em contraste a regiões desérticas, influenciava seu interesse pela observação cuidadosa quanto ao espaço, chegando à criação de um hábito quando finalmente compreendeu o próprio ciclo da natureza em razão de sua ocorrência natural: as espigas de grãos que semeavam as terras alagadas como capim depois das cheias foram, talvez, a razão do ser humano procurar semear os grãos que animais já consumiam, aperfeiçoando o uso dessa fonte de alimento ao transformá-lo em farinha e posteriormente em pão. Ou seja, ao semear áreas semi-alagadas depois do ciclo das cheias, quando plantas perenes e outras sazonais deram motivos às práticas de plantios de determinados grãos em épocas específicas, o ser humano conseguiu, desse modo, obter uma fonte de alimento mais seguro e que o levava, por desenvolvimento de hábitos, a sedimentar sua relação com o espaço em uma estabilidade de condutas que possivelmente originaram as relações humanas ocorrerem dentro de um aspecto mais complexo que não se devia apenas em decorrência do espaço físico ou biológico, mas também social em torno do qual se organizaram as primeiras sociedades da Antiguidade durante o transcorrer dos ciclos e no decorrer dos séculos. 

Artigos relacionados: As cheias do NiloDa pedra ao vaso, Ceramistas da Antiguidade.

Rei Escorpião II possui uma enxada, que foi interpretada como um ritual que envolve o faraó cerimonialmente cortando a primeira estria nos campos, ou então abrindo diques para inundá-los.

Assim, não seria ousadia supor que temos um ambiente fértil a um sujeito consciente de determinado ciclo de eventos, eventos que se relacionam com a natureza, seja o de surgimento do Sol no horizonte ou o de seu pôr na direção oposta, ou mesmo, sejam os eventos climáticos que, por qualquer motivação interior, passaram a receber culto do ser humano, devido à visão de sujeito à determinada ritualização cotidiana ou sazonal, visão que também se desdobraria sobre dimensões divinas como sendo algo a ser feito por serem ações necessárias a que houvesse um equilíbrio entre as forças, quando tudo se repetiria em um cotidiano de oferendas e de serviços, o que foi essencial especialmente ao panteão egípcio, capaz de ordenar o caos à própria imagem de ordenação de um mundo, transformando crenças de hábitos que convenientemente tenham surgidos em condições ambientais propícias, como o de cultivar a terra, para se transformar em um ato ritualizado de cultivo dos grãos às margens dos rios, dando origem aos primeiros povoamentos em que seus habitantes foram capazes de alterar, a partir de seu próprio modo de existência, o ambiente em que viviam, extraindo riquezas.

A organização das riquezas trouxe a existência do Estado egípcio através de seus sacerdotes e de seus escribas. Um Estado que demandaria por conhecimentos relacionados aos registros e aos controles dos eventos que traziam fartas colheitas e abundância de recursos. Por outro lado, é um pouco mais complexo para se compreender o que seria possível à realidade egípcia de 4000 anos atrás, período em que as sociedades poderiam ser interpretadas como “multidimensionais”, e, nesse caso, de difícil acesso em razão de conhecimentos especializados que comportavam as primeiras grafias de uma escrita pautada por ideias, tais ideogramas como selos de uma visualização mimética do que se queria representar, ou os hieróglifos, sinais sagradas que apenas o faraó, seus sacerdotes, alguns membros da realeza e de altos cargos militares, além dos escribas, sabiam interpretar. Assim, pode-se imaginar que interpretar os sinais era uma atividade de teor divino que cabia somente ao faraó, como ponto mais alto da hierarquia entre o céu e a civilização egípcia e em torno do qual a realidade egípcia como Estado se moldou à capacidade de seu conhecimento em diferentes campos.

Era de uma compreensão para além do mundo da physis aquela que decorreria da presença do faraó com sua capacidade de agir dentro das próprias dimensões do panteão egípcio, quando fenômenos naturais e características antropomórficas associadas ao poder de animais traziam algum sentido e algum propósito à criação de um Estado hierárquico e organizado com algum permanente aspecto divino, teocrático.

Mas para se chegar a essa ideia, podemos pensar que cada povoado às margens do Rio Nilo há 5000 anos atrás poderia ser vivenciado como um microcosmo, porque, ao pensarmos nesse “Egito Antigo” e pré-histórico, podemos deduzir que cada povoado tinha suas próprias condições de ser considerado um ambiente “terrário”, ou seja, uma região junto ao Rio Nilo em constante manutenção de suas fontes de recursos, produzindo um ciclo completo de abundância pela disposição das fontes de água e de uma diversidade de espécies tanto de fauna quanto de flora local.

Tablete com apontamentos das rações de cevada distribuídas a adultos e crianças (aprox. 2350 a.C.).
Um relato de rações de cevada emitidas mensalmente para adultos (30 ou 40 litros) e crianças (20 pintas) escritas em Cuneiforme em tablete de argila, escritas por volta de 2.350 a. C. De Ngirsu, no Iraque. Museu Britânico, Londres. BM 102081
Portanto, o sentido de ser interpretado como um ambiente à parte protegido por um “domus”, (palavra da qual se deriva “doméstico”), pode ter uma importância fundamental para o modo de vida sedentário ligado à concepção de “lar”, ou seja, um ambiente reconhecido por uma certa cadeia de eventos familiares que acompanham a seleção mecânica dos grãos das espigas colhidas entre a relva, porque é da necessidade de se beber água que surge os vilarejos com habitantes relacionados a um mesmo espaço conceituado de “lar”. Pode ser que tenha sido assim que um modo de vida sedentário tornaria-se regra de hábito de muitas povoações, entre os quais se difundiram técnicas de manejo do solo até a complexidade de se viabilizar sistemas de canais de irrigação para extensas plantações de grãos que, colhidos, forneceriam, quanto à região do Rio Nilo e a cinco mil anos atrás, dois dos principais alimentos utilizados para a base alimentar daqueles que construiriam as fundações do Estado Egípcio ao erguerem monumentos faraônicos durante séculos de dinastias e de reinados divinos: o trigo e a cevada para o pão e a cerveja.
 
Continua na próxima postagem…

Para ir além:
http://www.moinhonacional.com.br/informativo/curiosidade-a-origem-do-trigo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cevada

https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/conceito-estado.htm

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2018/07/fabrica-de-cerveja-de-45-mil-anos-e-encontrada-no-egito.html Acesse AQUI

 

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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