Artes e Fatos - Série "Origens dos Conhecimentos"

Cósmico corpo

Última postagem da série “Origens dos Conhecimentos”, o “Cósmico corpo” definido por pensamento síntese que se encontra na ideia de uma vida mística e iniciática de um desenvolvimento humano a partir de um entendimento das mentalidades humanas e em sua dimensão mais arquetípica: o “abutre” como símbolo da realeza pré-dinástica egípcia e a “serpente” como símbolo de maestria.

Pontos abordados

Ler “A Serpente Cósmica: A Sabedoria Iniciática do Antigo Egito Revelada” de John Anthony West se torna uma experiência extremamente produtiva. É de uma imensurável fonte de recursos para um amplo estudo de revisão da natureza do conhecimento egípcio na sua antiguidade, nos seus fundamentos mais sutis. E aqui está um ponto revelante, como também paradoxal: assume-se que o povo egípcio na sua antiguidade fora materialista e ao mesmo tempo metafísico, como uma visão sobre uma esfera material dentro da qual eventos não materiais se dessem como fenômenos de uma estruturação espaço-tempo, e que envolveria especificamente o trabalho do observador em querer ver no interior daquele objeto o alvo de seu interesse materializado.

Para West o conjunto da arte egípcia é simbólico por representar um sistema subjetivo de correspondências, de modo que “Em cada campo do conhecimento egípcio, os princípios subjacentes eram mantidos secretos, mas tornados manifestos em obras” (p. 57), sendo que o “universo físico se completa em princípio em quatro termos: unidade [1], polaridade [2], relação [3] e substancialidade [4]” (p. 90), quando a “polaridade é realizada em tempo e espaço como espírito materializado (3×4) e matéria espiritualizada (4×3), em que West destaca na “ciência” egípcia princípios descritos pelos pitagóricos apenas por volta do século V a. C., como sendo princípios correspondentes a esses conhecimentos de uma ancestralidade egípcia, em que a notação moderna 1+2+3+4= 10, representa a unidade na totalidade em que há o “0” e o “1” como um par ou duplo em um sistema binário-molecular-vivo como o abordado na postagem anterior. E isso explica um pouco o aspecto da origem da matemática para o entendimento dos números e suas relações simbólicas com os sentidos cosmogônicos egípcio, tema que foi o objetivo na primeira postagem da série.

Para ilustrar melhor, trago de “Leviatã” de Thomas Hobbes, a classificação desse autor para dois gêneros de conhecimentos: “um dos quais é o conhecimento dos fatos, o outro o conhecimento das consequências de uma afirmação para outro (…)”, no que, então, o autor define que a história é o registro do conhecimento dos fatos, distinta da chamada história natural, já que essa última em nada depende da ação humana para se transcorrer, e dessa forma, ela é uma história das plantas e dos animais, enquanto a história que se registra pelo homem, é a história das ações voluntárias de pessoas numa vida civil.

Em uma determinada passagem, West nos traz a informação de que “a imaginação é a primeira origem interna de todos os movimentos voluntários” a um corpo percebido como partes de uma materialidade maior e que foi, dessa forma, estudado frente a um cosmos percebido como criação de uma criatura superior a quem, somente então, começa a se compreender em um mundo.

A esfera, o terrário, o aquário – qualquer meio que se possa analisar, uma parte de um membro, um membro inteiro, qualquer juízo que se possa oferecer a, enfim, um pensamento lógico e abstrato decorrente de um raciocínio capaz de revela uma consistência de um objeto materializado se manifesta em grande parte das vezes como um evento fantástico, sobrenatural caso se desconhecido os meios de sua materialização.

O círculo, a serpente que morde a própria cauda, o ciclo. O pensamento que se pode se chamar de místico nos desdobramentos de uma consciência humana que se torna imagem de si sendo investigada, trabalhada e desenvolvida. Por que não se supor plenamente possível que isso não tenha ocorrido há cinco mil anos atrás? Quais os impedimentos materiais ou simbólicos para que a consciência humana não tivesse se desdobrado em dimensões múltiplas com as primeiras grafias de sua consciência ativa sobre a criação do mundo?

Selo real - a observar os elementos "Ankh", "Serpente" e "Abutre" já abordados na série.

Linguagem e raciocínio

Ao recapitularmo que o Dualismo, desde que compreendemos o conceito em que a deusa Maat insere seu “duplos”, representa um pensamento-chave e estruturante (forma-função) de uma filosofia acerca da “mente”, uma “filosofia” pela qual se considera a mente uma substância não-física no cosmos, algo que divide tudo o que há na criação em duas categorias diferentes: a mental e a física: o primeiro duplo.

É o despertar da consciência que podemos indicar como ocorrência não-física pela “aparição” do deus “Atum-Rá”, cerca de 6000 a.C. entre os egípcios pré-históricos e que já viviam e dominavam técnicas diversas, incluindo cerâmica com a qual trabalhavam figuras geométricas. Vamos além, “Atum-Rá” como um deus primordial e criador que originou uma explosão que gerou os demais corpos celestes do universo, criou “o sol da tarde” quando o deus Atum “torna-se a si mesmo”, tomando a forma de Rá, assim, Atum une-se a Rá e se transforma em único ser. Atum como um néter egípcio, adorado em Heliópolis é a transformação de Nun, o “ser subjetivo”, em um ser objetivo, originando-se conceitos como das finalidades e dos percursos, traçado pela cosmogonia arcaica e pré-histórica de muitas culturas.

Percebe-se que a cosmogonia egípcia retrata fórmulas criadas por um efeito estruturante do par “forma-função”, obtendo-se um efeito extremamente pragmático e palpável para a formação de uma linha de raciocínio com expressões complexas à interpretação. Sobretudo, percebe-se que se produz constância em eventos que certamente estariam fora do controle humano, como períodos de seca ou de inundações, quando a constância da criação pelo seu néter, amplia o interesse humano sobre o divino. Em Dendera, Templo de Hathor, já por volta do terceiro milêncio antes de Cristo, os céus são explorados por sacerdotes que passam à ciência do cosmos, sistematizada em estudos que lançavam luz à escuridão da aboboda celeste, traçando “corpos” para efeito de uma “astro-nomia”, refletindo sobre uma “astro-logia”, e produzindo comparações relativas à análise matemática de um mundo concreto-abstrato.

Acontece que os egípcios, nesse ramo, tinham o domínio de base decimal de todo seu cosmos, tudo se reduzia a “dez” na perspectiva de uma unidade constituída em um plano posterior da primeira criação iniciada. Mas os povos da suméria, expoentes na observação de estrelas no céu, já dominavam os cálculos com base em “12” por volta de 4000 anos a.C., numa ciência de um sistema sexagesimal, como método de medidas de capacidade, de superfície e de pesos, com réguas graduadas, quando passaram a dividir os dias em 24 horas iguais: 12 Danna (horas duplas), com base de dados retirada, possivelmente, sobre uma análise da uma forma esférica ou, mais apropriadamente, de um círculo geométrico que serviria de base a uma observação cíclica dos fenômenos naturais e astronômicos. (Ver AQUI https://socientifica.com.br/os-sumerios-desenvolveram-o-conceito-de-tempo-usado-ate-hoje) Temos, pois, desse período, o início de uma escrita rudimentar que se tornará a cuneiforme desenvolvida por volta de 3000 a.C. e, muito importante, dando lastro a um culto generalizado e dedicada a deusa “Inana” (entre os sumérios) ou “Ishtar” (entre os acadianos), cujo símbolo é uma estrela de cinco pontas que já se encontra inscrita nas tumbas egícpias pré-dinásticas como representação de “estrelas no céu”.

Se observarmos bem, o percurso descrito acima da deusa Inana/Ishtar cabe no argumento do professor Manoel Campos Almeida em que relaciona a deusa Nisaba como uma expressão de uma especificidade relacionada às deusas originais de um culto de fertilidade da terra e de procriação, um meio de ligar o além das estrelas observadas no céu a um efeito cíclico observados em cálculos que se relacionavam ao movimento dos astros e que podem ser descritos em argumentos.

E considerando que a matemática é argumento de uma parcela estruturante dos nossos processos mentais nos quais nos qualificamos como humanos, nos distinguindo dos demais primatas, o produto dessa atividade humana é, portanto, social e histórica, ou seja, de uma relação muito presente em “Maat”, como deusa de uma materialidade de formas, matéria cuja base é “4”, (dois “duplos”), algo que se refere à substância de que é feita a matéria a ser lavrada como pedra cúbica por um desenvolvimento humano originalmente de uma concepção egípcia mantida viva através dos arcanos de seu tarot, algo muito bem sinalizado em “estátuas-cubo” em moda no período de Hatexepsute. Pois o número “4” se refere a uma substancialidade que West aponta nas quatro fases distintas de uma “ciência egípcia”, ou mais exatamente de um “proceder egípcio” para se chegar a um conhecimento adquirido pela formulação dos hieroglifos como métodos de passagem relacionado a um conceito de tempo. Ora, a ciência se origina de um proceder específico para uma investigação criteriosa dos elementos que fazem parte do que se respalda como um conhecimento replicável: existe a observação, uma formulação de hipóteses, existe a fase de testes e a de comprovação teórica-prática, para, então, se chegar a um veredito do que corresponde à existência do que é estudado, analisado, discernido de um todo e, assim, tornado um objeto identificado em relação a um mundo.

Nesse sentido, toda a formulação de um conhecimento seria necessariamente ligada a uma estrutura maior de eventos observáveis como entre os sumérios e os acadianos, eventos naturais e pertencentes a physis, ou, por outros métodos, os não-naturais, e evidentemente fenômenos produzidos por forças alheias às formas próprias da constituição de uma matéria, como ocorre num processo alquímico intencionado por uma entidade consciente de sua ação sobre o processo, tal qual um demiurgo subjetivo atuando sobre a superfície de uma materialidade viva.

Algumas passagens muito importantes da obra de West nesse sentido:

“Material, Substância, coisas: o mundo físico é a matriz de toda experiência dos sentidos (…)” (WEST, 2009; p. 72)

“Matéria é um princípio acima e além da polaridade da relação” (idem)

E para um pensamento egípcio da Antiguidade, o corpo era feito de partes, não estando situado apenas na sua forma material, mas tendo outros parâmetros de existências em que a noção de dimensão se aplica com maior justeza.

Aliás, Maat, de sua quarta dimensão como princípio, pesa o coração do homem egípcio como um bilhete da passagem dele para o além vida, porque, desse modo, não haveria morte, senão como desvio do caminho trilhado pelo que é iniciado como ser humano em sua dignidade de existência em todos os planos, como parte co-participativa na criação de um mundo cosmogônico. A se destacar, assim:

“O coração, não a cabeça, compreende o Três (por “coração” quero indicar o conjunto das faculdades emocionais humanas). A “compreensão” é antes uma função emocional que intelectual e é praticamente um sinônimo de reconciliação, de relacionamento”. (WEST, 2009; p. 70)

O coração (ib), nesse sentido, era o centro do universo da existência material egípcia como fonte motor da energia cósmica como o deus Rá para o Egito Antigo. Ao se compreender o “duplo” do que se representa como “Um” (ponto) e “Dois” (círculo) a comparação teleológica quanto a esses conhecimentos seria amplamente possível, ou seja, a busca por objetivos finais resultantes como uma doutrina articulada nas observações feitas em distintos níveis sensoriais seriam inerentes desdobramentos totalmente fundamentados em ideogramas como os hieróglifos, cujas ideias centrais comunicam múltiplos corpos existentes ao que é plano do vivo, e como um ente vivo em um todo direcionado, sendo, assim, uma última instância nessa unidade primordial que é última finalidade quanto à transcendência dessa realidade material, ou ainda, simples substância amorfa que contém o indício nítido (néter) de um pensamento místico que compreende a vida egípcia como uma passagem sobre a qual todo ser humano responde pela sua experiência do que é vivido. E assim se compõe o ser humano à “maestria” em West, página 70: “O grau em que uma pessoa compreende o três é um indicação do grau em que ele ou ela é civilizado”. Mais do que isso, como aprendizado, trata-se de um pensamento místico que antecipa um raciocínio lógico constituído de muitos argumentos válidos pela experiência como um conhecimento articulado, como ocorre a partir de Aristóteles com todo seu pensamento estruturado em “ciência” (episteme), mas, no caso egípcio, esses estavam adiantados em pelo menos dois mil anos se comparados ao conjunto sistemático do trabalho de Aristóteles constituído nas várias categorias sensíveis de seu “Organon”, dado como método de argumentação para uma demonstração científica de validade de um argumento, o que expõe a linguagem e, sobretudo, um sistemático procedimento de critérios para se analisar como um “pensamento aristotélico” de validações.

Muito interessante nesse ponto é destacar o capítulo “As origens das civilizações”, em “Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias”(EMN, 2020), no qual se lê:

É através da capacidade de narrar sobre os elementos possíveis para a percepção humana [como fez Aristóteles na primeira parte de sua obra], que os vários saberes [néters] potencializam diferentes aspectos da formação de um conhecimento qualquer, já que explicam, a sua própria maneira, as interpretações dos elementos contidos e representados nas realidades dos sujeitos, e que são, em outras palavras, percepções de juízos baseadas em valores organizados pela vida em sociedade. (EMN, 2020; p. 53. Entre colchetes, observações minhas atuais)

Nesse capítulo citado em particular, procuro esclarecer dois conceitos fundamentais ao pensamento ocidental como um todo, e que são o de técnica e o de conhecimento, ambos originados nas mesmas linhas filosóficas gregas que exploraram os limites do que é o pensamento humano em sua estrutura de expressão de um mundo, porque foi, afinal, nesse ponto geográfico e histórico, no século VII a. C. que um comércio marítimo, sob um regime monetário, teve ampla expansão econômica em toda essa região da Ásia Menor, experimentando-se uma disseminação de técnicas, então desvinculadas de uma origem divina (que, como “técnicas divinas”, ainda estavam em voga no Egito), para oferecer um conhecimento por meio de imagens explicativas e racionais em virtude de uma progressiva rejeição a uma visão mítica de uma realidade.

Esse é ponto em que West se separa quanto ao termo de “ciência” recepcionado pela tradição ocidental em contraposição à ideia de um desenvolvimento “místico” do ser humano como uma ciência própria desenvolvida à concepção do mundo egípcio. Para West, como já abordado em postagem anterior, a religião e a ciência se fundem, sendo uma coisa só e igual a tudo o mais que se manifeste. E nem por isso o manifesto seria abordado de modo menos científico em critérios de validações “laboratoriais”. 

Heráclito, filósofo do século VI a.C., trouxe à discussão sobre unidade fundamental (1), subjacente à multiplicidade aparente, a ideia de uma relação (3) entre forças opostas (2), ou ainda, uma unidade consistente pela tensão de forças opostas, o que muito me lembra Maat, como princípio (4) em seu eixo de julgamento (3) em torno do qual o mundo egípcio se equilibra. Mas diferente dessa realidade religiosa, Heráclito trouxe que “É sábio escutar não a mim, mas ao meu discurso (logos), e confessar que todas as coisas são Um”. O que é bem mais interessante, pois haveria unidade nas transformações regidas pelas tensões entre forças opostas, interferindo em todos os plano da realidade, seja o físico, biológico, psicológico, político ou moral, dando um caráter mutável da existência como um todo em um fluxo, e nesse fluxo, comportando-se como uma chama comparada a uma atividade intelectual de racionalizar as formas e as substâncias que mudam. O “Logos-fogo”, impõe uma medida ao fluxo universal (luz solar) como um conhecimento que traz regularidade aos “caminhos” dessas transformações, tal qual linguagem ou consciência com a qual observamos melhor o mundo e suas relações.

Outro filósofo grego do século V a.C., Empédocles, “democratiza” ainda mais essa consciência de mudança da realidade, conciliando a razão e os sentidos fisiológicos e perceptivos com o pluralismo de formas essenciais à existência, formas conhecidas, hoje, como os quatro elementos: água, ar, terra e fogo. Curiosamente, por Empédocles: “Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais; não há fim pela morte funesta; há somente mistura e dissociação dos componentes da mistura. Nascimento é apenas um nome dado a esse fato pelos homens”, algo que soa próximo a um pensamento místico que estaria associado, na Idade Média, aos princípios alquímicos difundidos no período, mas que teriam origem no Egito Antigo.

Destaca-se aqui, nesse sentido, o princípio de “cisão” que West aponta na representação do “1” como iniciativa qualquer da vontade, que é uma concepção do “Sol” como origem da fonte da vida para o homem egípcio da Antiguidade. Se há, portanto, uma concepção de mundo, há um mundo estruturado para recebê-lo com suas partes que de igual modo se integram num todo visualizado como real. E é uma percepção de existir um ciclo tal qual uma medida de tempo, demonstrado pelo sistema da vida no nascer, no amadurecer e no morrer, que diferentes aspectos da mentalidade egípcia se descortina entre a natureza corpórea e a natureza intelectual, entre a natureza afetiva e a natureza sócio-cultural humana, sem esquecer da espiritual.

Na concepção, uma ação se realiza em seu pleno sentido de existência de forma independente do que irá se realizar como expressão de um pensamento. Por exemplo, no tarot egípcio podemos identificar as “virtudes cardeais” observadas mais de dois mil anos depois pela Igreja Católica em sua formação histórica, sendo elas: “Prudência” (9), “Temperança”(14), “Justiça”(8) e “Força”(11). Como não dizer que há uma linguagem e um raciocínio de correspondências entre essas lâminas do tarot e o que representam ao homem egípcio da Antiguidade? Se a consciência desse homem é capaz de realizar inscrições simbólicas ritualizadas para determinados fins alegóricos, qual o impedimento que ele poderia ter encontrado que o desviasse de um profundo conhecimento de si e de sua natureza não-física relacionada à mente dual, conceito de que se diz nascer todo um entendimento sobre a existência como sendo essa, uma parte visível de uma mente superior e maior com uma infinita sabedoria? Um todo criativo e de inteligência infinita?

O cósmico corpo é interpretado como fonte primária aos vários corpos em que se constitui um ser humano, como microdimensão existencial de dimensões paralelas ao visível. Se a consciência humana é resultado de uma experiência sensível, o além de sua sensibilidade física seria uma espécie de aprendizado consciente que se projeta para além presente, tempo e espaço, sendo uma interpretação estruturada sobre essa existência e um entendimento humano originado das condições nas quais um pensamento é capaz de se formar como tal. É, como diz West, uma integração sem precedentes de ciências e arte, filosofia e religião, mas, sobretudo, não haveria qualquer forma de raciocínio senão houvesse uma linguagem sobre “causas e efeitos” em que, então, os nomes (nomos) são conexões invisíveis com outros mundos. O cálculo da matéria como fio condutor de um raciocínio sobre o mundo em que ser humano se encontra, é o espaço para sua interação sobre a substância que a contém como forma material específica, cálculo que faz parte de um axioma biológico quanto aos sistemas vivos: toda forma desempenha uma função em sua especialização em relação ao todo.

O faraó atirando com arco

Misticismo egípcio

É plenamente possível pensarmos em linguagens distintas para públicos distintos em todo o período da Antiguidade Egípcia, já que em seus templos os símbolos evocados, são tanto o descobrir do que representam do todo dessa unidade cósmica que os relaciona aos significados dos nomes, quanto aos sentidos explorados pelo que representam em diferentes níveis de interpretação e de conhecimentos, o que claramente demonstra um discernir de métodos (até didáticos) com meios específicos de revelar um autoconhecimento ligado à iniciação da existência da própria vida em vários planos distintos de decisão.

É sobre a origem interna de movimentos voluntários humanos, bem descritos pelo conceito de pathòs grego, que a linguagem encontra uma expressão como fonte de acesso para a “ciência e ao conhecimento das consequências”, não apenas da physis, como também de nomos. De tal modo que:

“(…) Qualquer manifestação no mundo físico representa um momento de equilíbrio entre forças positivas e negativas. Uma ciência que compreende isso também compreende que conhecendo o bastante sobre essas forças positivas e negativas, também estará, por dedução, familiarizada com a inevitável terceira força, já que ela tem de ser igual às forças opostas de modo a realizar esse momento de equilíbrio (…)” (p. 70)

Como já observado em postagem anterior, os quatro princípios a uma substancialidade da matéria são destaques na interpretação de ciência citada acima: o princípio ativo (rA) fogo; princípio receptivo (V) terra; princípio mediador (E) ar; princípio material (U) água, em que se consubstancia uma aplicação simbólica e cíclica que governou o panteão mitológico de todo o período da Antiguidade e por diversas culturas, quando um deus do céu e uma deusa da terra geram um mundo cosmogônico tal como conhecemos, mas que só se materializa por meio de um terceiro elemento, na relação trina em que a existência se equilibra numa balança, símbolo do ar, quando o líquido, água-espírito-vida se encontra manifesto em múltiplas formas em tudo que é vivo. O cósmico corpo egípcio é, portanto, uma unidade perfeita, eterna e de uma consciência indiferenciada como o atman da tradição de crenças indianas (clique AQUI para saber mais a respeito).

Enfim, ler West por sua obra “A Serpente Cósmica – A Sabedoria Iniciática do Antigo Egito Revelada” é realmente se propor a um mergulho em uma revisão histórica de seus próprios conhecimentos. É um livro que nos instiga à reflexão profunda, e a interrogação que nos traz estimula uma busca por mais e mais repostas, o que o torna extremamente produtivo quanto ao que nos traz de conteúdo. Portanto, sem esgotar de forma alguma seu conteúdo, é uma referência ótima para estudo, principalmente das origens dos conhecimentos pelos quais, hoje, somos capazes de nos “perceber” no cosmos.

Espero, particularmente, que a série tenha acrescentado ao leitor uma perspetiva de aprendizado com a qual tenha maior clareza de sua existência, pois, para mim, estudar West e demais autores foi muito construtivo e esclarecedor, algo que está repercutindo em novas descobertas.

Gratidão a tod@s!

Egídio Mariano  

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Links externos:

“CONCEPÇÕES EGÍPCIAS ACERCA DA MORTE: Uma releitura sobre a questão da alma no Egito antigo”, pdf para download acessível em https://periodicos.ufms.br/index.php/fatver/article/view/1293/819

“Sistemas de numeração antigo”, artigo pdf: http://www.mat.ufpb.br/bienalsbm/arquivos/Mini-Cursos/PatriciaAires/Sistemas-de-Numera%C3%A7%C3%A3o-Antigos-Patricia.docpdf.pdf

https://mundoeducacao.uol.com.br/matematica/sistema-numeracao.htm#:~:text=O%20sistema%20de%20numera%C3%A7%C3%A3o%20dos,com%20base%20em%20dois%20s%C3%ADmbolos.&text=Os%20n%C3%BAmeros%20s%C3%A3o%20representados%20em,se%20n%C3%BAmeros%20maiores%20que%2060.

https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2021/01/31/egito-piramides.htm

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/paleta-de-pintura-de-pedra-com-5000-anos-desenterrada-na-turquia.phtml

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/analise-de-tintas-preta-e-vermelha-revela-segredos-de-papiros-egipcios.phtml

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/tratado-medico-do-antigo-egito-revela-conhecimentos-de-3600-anos-atras.phtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Atum_(mitologia)#:~:text=Atum%20%C3%A9%20um%20neter%20eg%C3%ADpcio,ser%20subjetivo)%20no%20ser%20objetivo.&text=Atum%20foi%20o%20criador%20do,seria%20chamado%20de%20Atum%2DR%C3%A1.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sum%C3%A9ria

https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicostasia

https://www.bbc.com/portuguese/geral-54265749

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46501897

https://www.bbc.com/portuguese/geral-55638098

https://www.bbc.com/portuguese/geral-47487130

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Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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