Artes e Fatos - Série "Origens dos Conhecimentos"

Cósmica Mente

Nos artigos anteriores vimos o desenvolvimento humano pela concepção de uma mente dual, de natureza que se chamará de mística iniciática pelos escribas egípcios, e que estudaremos a seu tempo com uma maior profundidade. “Cósmica Mente” é um tema que alcança a designação da qualidade do faraó egípcio como governante no Antigo Egito, um recurso multidimensional do qual o conhecimento em lâminas oraculares é uma extensão materializada de seu desenvolvimento cognitivo.

Sobre as fontes dos conhecimentos

Muito do que se pode ler aqui nesses artigos se refere a anotações que faço em meu caderno, atividade de escrita e de revisão que já se tornou um hábito, penso, até saudável como forma de me desenvolver como alguém num mundo. Saber as origens desses conhecimentos que temos conosco como exercício de uma consciência ativa e iluminadora é bastante útil quando pode dar sustentação a uma visão de uma vida pragmática, com um efeito comportamental que nos leva a acreditar que dessa forma alimentamos uma nova realidade pelas escolhas que fazemos a partir de nossa própria consciência a respeito do que sabemos pelo nosso aprendizado. 

Na composição do livro “Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias”, procurei dar fundamentos aos estudos ao trazer informações de uma bibliografia com fontes variadas, mas muito do que trabalhei e abordei se deu de maneira intuitiva, faltando-me, mesmo depois de publicada a obra, alguma coisa que sustentasse melhor meus argumentos dentro dessa pesquisa.

Com a publicação feita de maneira online em julho de 2021, decidi sanar essa lacuna da bibliografia ao buscar novas fontes para interpretar as leituras já feitas por mim, elucidando o que realmente eu abordava nas entrelinhas do livro como se fosse um ponto além que me guiasse como se no escuro eu ainda estivesse quanto a uma base teórica de fundamentação dos meus argumentos.

Assim, o mês de agosto começou e tive a chance de me presentear com um livro que me surgiu na web como se destinado a me responder a essa lacuna teórica, utilizando-se de todas as palavras daquela minha inquietação por um melhor embasamento ao meu trabalho.

Esse livro foi o de John Anthony West, “A Serpente Cósmica – A Sabedoria Iniciática do Antigo Egito Revelada” que adquiri pela web e pelo qual esperei uns cinco dias até chegar em meu endereço. E foi como um achado!

De mesma importância, aliás, foi outro livro de uma profundidade gnóstica e iniciática, chamado “O sandeiro iniciático nos arcanos do Tarot e Kabala”, de Samael Aun Weor. Esse livro foi um empréstimo generoso de um amigo a mim e que está comigo há anos, de tão necessário que se tornou com o uso e com o conhecimento que se encontra nos arcanos egípcios. 

Nesse último livro, em particular, a leitura dessas “lâminas” oraculares egípcia nos leva a consagrar uma disposição de vivência de uma narrativa pautada pela dignidade do homem egípcio em torno de suas escolhas sob o reino de Rá.

Nesse sentido, o “Tarot Egípcio” é um dos jogos adivinhatórios mais antigos de que se tem notícia. E interpretar os conceitos que estão sob os arcanos, entre os quais, a pedra cúbica, nos remete a reler West em sua descrição das representações numéricas, porque há certamente uma consonância de conhecimentos que descrevem, em obras distintas, informações de bases comuns. Porém, quais?

Vamos, nessa atual postagem, procurar ilustrar algumas dessas bases comuns a partir do conceito de percepção promovido pela compreensão de uma mente dual, não restrita a uma materialidade corpórea, mas subscrita em uma entidade cultural ampliada à cósmica mente.

“Atmos” o meio em que a existência se equilibra

Vimos que Ankh ou Ansata é um símbolo para se compreender uma existência dual: duas partes integradas em uma mesma manifestação de totalidade de um mesmo “Um” indefinível que é interpretado como “a chave” imaterial a um processo de acesso para uma vida além vida. E na ideia de ser o número “2” uma forma-função-pensamento de “completude” que se compreende no “primeiro sinal de concepção”, o “con-cepto” para uma ação definida a partir do que é concebido, temos aí, e então, o entendimento de um feminino que a cruz egípcia Ansata designa no círculo e na sua parte superior, a que compreende ser, também, um formato de “anel”, ou ser uma “aliança” e de igual maneira uma “coroa” sob a qual, finalmente, o masculino e complementar princípio ígneo da criação se constitui em um terceiro valor existencial quanto ao que é concebido. E esses são de aspectos interpretativos que não impedem uma maior reflexão humana a respeito, pelo contrário, devem ser considerados para se chegar a ideia de uma ampla linguagem em que os números (conceitos abstratos), representados e organizados, dão formas a um poder de “aferição existencial”, poder dotado de tais “certezas não incidentais”, essas providas de sentidos e de significados que legitimam dogmas sobre o que existe ou não, como evidência de uma realidade primária, mistificada pelas tradições, mas que promoveu muitas culturas.

Mas o que interpretar de “certezas não incidentais”? Parece que foi a capacidade de síntese de um pensamento abstrato com que ideias se tornaram relações simbólicas que nos trouxe a uma realidade tangível de sentido e de percepção quanto à existência de proporção entre formas, bem de quantidade observadas como um valor numérico arbitrário. Nas trocas tratadas, antes a título de escambo, por exemplo, e posteriormente usadas para uma representação simbólica de poder e de influência, como signos de “realeza”, foram trocas efetivamente simbólicas dadas em um plano abstrato de comunicação e nas quais se definiram algumas das categorias de sujeitos de direito quanto à aplicação de técnicas reconhecidas, como as de engenharia ou as de medicina, por exemplo, ou ainda, as de responsabilidades administrativas e de competência de domínio territorial, definindo um espaço sobre o qual passa a se retratar uma nítida capacidade de organização feita por meio de uma linguagem específica e sob determinada formas de padrões comuns depois de definidas em suas fronteiras.

Como vimos na postagem anterior, Nisaba deusa dos matemáticos, mensura o reinado sumério pelos padrões de suas medidas, e não apenas essa deusa, como as demais posteriores a ela, ou concomitantes a ela, como Hathor, determinaram suas fronteiras em medidas comuns que fizeram da civilidade um método aglutinador de ascensão das culturas a um mesmo substrato de igualdade nas diferenças culturais que existem e são identificadas por natureza de suas formas-funções em sistemas abstratos. Nesse patamar de “civilidade”,  “certezas não incidentais”, teríamos os valores de referência bastante promissores a um entendimento maior de um ser humano que comunica ideias distintas e, por isso, se torna um meio imaterial de se produzir relações de trocas simbólicas, algo bem investigado por West em “A Serpente Cósmica”.

Pois os signos/símbolos foram elementos constantes dentro da observação da Antiguidade Clássica grega, ou ainda na Antiguidade Egípcia. Os gregos foram diplomatas e reprodutores dos conhecimentos que compreendiam além de suas fronteiras marítimas, compiladores de conhecimentos culturais diversos, enquanto os egípcios trataram dos seus desafios por meio de uma dimensão de uma escrita sacerdotal, criando-se, provavelmente, por isso, os hieroglifos que, em síntese, representariam um conhecimento iniciático para uma “ciência” egípcia articulada pela escrita e observação de um mundo relacionado a essa expressão. E é muito interessante que esse ponto de vista de West seja explorado como tal: uma ciência.

Se admitirmos que já existia há mais de cinco mil anos atrás o que podemos chamar de um corpo científico de estudo e de análise de uma linguagem de natureza humana, retratada simbolicamente como um conhecimento que se torna um meio de se conhecer (e que é base das tradições iniciáticas, considerando a mente dual, o microcosmo), tudo o que foi produzido durante todo esse período pode ser revisto sob outros olhares. A começar com que compõe a existência da vida dentro do que são representados pelos estados primários e secundários da matéria conhecida por nós, cuja base é figurada por elementos chamados essenciais à natureza do que é vivo, entre o “ânimo”, atmos e o meio de se produzir as formas conhecidas.

Os quatro elementos

Estamos todos os dias reproduzindo relações com significados ligados a elementos básicos à nossa existência e muitas vezes nem nos percebemos! A exemplo das formas geométricas com seus significados particulares, e que estão na base de toda forma que se tem como concreta, o que significa que pode ser visualizada, em essência, como uma organização de nosso sensível por conceitos que temos, hoje, como binários, entre o “0 e 1”, como um código básico inicial evidente da criação de um sistema (qualquer que seja), traduzido numa realidade palpável, com um detalhe importante, o “0” é uma convenção e um conceito “recente”.

De igual modo, o par do conceito “0 e 1 ” pode ser interpretado, essencialmente, como “0” o “feminino” (circulo-cíclico, sem “início ou fim”) enquanto o masculino “1” (falo-princípio-fim) estaria nas respectivas bases de sistemas ideológicos retratados pela tradição com um sentido de completude da criação-criaturas, são as “gêneses” com todas suas formas de existência, então apresentadas dentro de um padrão biológico de “encontro”+. O diálogo, assim, faria sentido de existir entre cada forma-função das criaturas percebidas pelo ser humano nesses sistemas biológicos em que a vida como um todo organizado se reproduz. E se seguirmos um raciocínio em que “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, logo perceberemos o encadeamento das ações que são necessárias à manutenção da vida como a conhecemos, a exemplo da ideia de um terrário sendo observado em seus ciclos isolados sob seu domo, mas servindo para ilustrar, pela proporção de seu microcosmo, um laboratório bioquímico e energético que demonstra em sua regularidade e sustentabilidade pelas relações de seus elementos, quatro elementos básicos e fundamentais à existência da vida.

Em West, é bem interessante a definição de que o som ocupa espaço e no espaço é uma vibração a ser determinada por uma forma específica. Conceitos modernos em que “som ocupa espaço” do mesmo modo que, do ponto de vista esotérico, “som é volume” e, portanto, também compreende um espaço determinado, ainda que indefinível, no seu aspecto material, pela percepção humana. Para se compreender melhor esse aspecto, West demonstra que as condições de proporções e relações numéricas são evidencias materiais inobservadas nos conjuntos arquitetônicos da Antiguidade egípcia para grande parte da egiptologia, embora destacáveis “coincidências” de utilização de proporções naturais aplicadas às medidas harmônicas como uma sequência de uma progressão numérica de números inteiros como a de Fibonacci, conhecimento discutido entre os gregos e indianos no mesmo período da Antiguidade, além do número Phi como função aplicada aos portais de cidades egípcias, cujas expressões matemáticas são de um pensamento racional e exato. E mais, tal é entendimento de Lubicz em se que descreve uma “ciência de harmonia, da proporção e do equilíbrio” que West indica, se não uma ciência totalmente formada a estudo minucioso de aspectos sutis e concretos da existência humana, pelo menos uma ciência intuitiva que poderia ser transformada em uma tradição de conhecimento tal sua natureza iniciática, passando a ser um método comum de ensino e de formação em toda a Antiguidade. Vale destacar de West: “Phi: a Proporção Áurea”; em que se tem a frase: “Os néteres do Egito estão baseados no número, assim como os hieróglifos egípcios” (p. 98); e, abordando a análise dos números, em que se tem o “4” (no tarot egípcio, sendo a pedra cúbica sobre a qual o ser humano se desenvolve), como o princípio de substancialidade da matéria, em que:

“O fogo é o princípio ativo, solidificador; a terra é o princípio receptivo, formador; o ar é o princípio sutil, mediador que efetua o intercâmbio das forças; a água é o princípio composto, produto do fogo, terra e ar – e no entanto uma substância acima e além deles. Fogo, ar, terra, água. Os antigos escolheram com cuidado. Dizer a mesma coisa em tempos modernos requer mais palavras e nenhuma se fixa na memória. Princípio ativo, princípio receptivo, princípio mediador, princípio material (…). No Egito, a íntima conexão entre o Quatro e o mundo material ou substancial foi aplicada no simbolismo.” (p. 73)

De tal modo que: “A unidade tornando-se consciente de si cria a diferenciação, que é polaridade” e a diferenciação se encontra na relação forma-função estruturada pelo conhecimento. Na sua análise dos números e seus usos simbólicos, West destaca que:

“A filosofia do antigo Egito não é filosofia em nosso sentido; não existem textos explanatórios. é não obstante uma filosofia real no sentido de que é sistemática, consequente, coerente e organizada sobre princípios que podem ser expressos filosoficamente. O Egito expressou essas ideias na mitologia e só quando essa mitologia é estudada como dramatização e ação recíproca do número sua coerência se revela” (p. 77) 

Ressalvas importantes a respeito:

  • “o uso do “0” é registrada pela primeira vez no século IX, em uma inscrição em Gualior na Índia Central, datada de 870″ em Algorismos Arábicos, wikepédia; seu conceito tem origem mais remota na tradição indo-árabe;
  • a “teoria dos Quatro elementos” é descrita em Sobre a natureza, do filósofo pré-socrático do século V a. C., chamado Empedócles,  que a formulou em lições desenvolvidas em versos, como poemas didáticos nos quais se descrevem “teorias da causa, da percepção e do pensamento, assim como também explicações do fenômeno terrestre e processos biológicos”, sendo que “Essa teoria dos quatro elementos tornou-se o padrão dogma nos dois mil anos seguintes”, ou seja, até a recente modernidade com a ascensão da ciência não-naturais e exatas;

Ambas ressalvas são importantes porque temos, na primeira, a concepção de West no que ele formula um conhecimento “científico” aos hieróglifos egípcios, posta a sua representação dos números como simbolismo de uma ciência precisa, adiantando em 3 mil anos um entendimento imaterial relacionado às formas geométricas descritas pelo número, cujo entendimento egípcio foi de uma concepção de uma realidade dimensional humana. E se considerar a mesma premissa, veremos que também está se adiantando no tempo as explicações sobre as formas naturais em sua essência por meio da mitologia egípcia e de sua organização como arcanos de conhecimentos sutis a uma constância de unidade que “torna o conjunto da arte egípcia” um símbolo, em que os temas centrais destacados na arquitetura e na expressão de sua arte estão centrados na reencarnação, na ressurreição e na jornada da alma no mundo subterrâneo (p. 120), e aí devemos incluir que o entendimento de princípios constitutivos do mundo precedem Empedócles em pelo menos dois mil anos, por isso se torna importante uma revisão desse período sob a análise melhor desenvolvida da obra de West.

Em nossa última próxima e última postagem da Série Origens dos Conhecimentos, minhas últimas observações sobre “A Serpente Cósmica – A Sabedoria Iniciática do Antigo Egito Revelada”.

Da presente Série Origens dos Conhecimentos, clique e confira:

  1. Ankh e o sinal de dignidade real
  2. MAAT
  3. A materialidade das formas
  4. Cósmica Mente

Postagens relacionadas de outras séries:


Referências citadas:

WEST, John Anthony. “A Serpente Cósmica: A Sabedoria Iniciática do Antigo Egito Revelada”. Tradução de Mário Molina. São Paulo: Pensamento, 2009.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Algarismos_ar%C3%A1bicos

https://pt.wikipedia.org/wiki/Emp%C3%A9docles

https://pt.wikipedia.org/wiki/Atman#:~:text=Atman%20ou%20Atma%20(na%20escrita,significa%20alma%20ou%20sopro%20vital.

Atmosphäre At.mo.sphä.re, feminino atmosfera, do Grego Antigo, atmós (“vapor”) + sfaira (“esfera”).

https://www.archdaily.com.br/br/949315/a-evolucao-no-entendimento-das-escalas-humanas-na-arquitetura

https://vitruvius.com.br/index.php/revistas/read/arquitextos/04.042/642

https://pt.wikipedia.org/wiki/Microcosmo

https://catolicotridentino.files.wordpress.com/2017/11/patristica-vol-2-carta-a-diogneto-arc3adstides-de-atenas-taciano-tec3b3filo-de-antioquia-hermias-atenc3a1goras-padres-apologistas.pdf

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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