Título Especial

Servo no lugar da verdade

Falávamos na postagem “As cidades há 3500 anos” de Deir el-Medina que aqui nos interessa por ter sido uma vila a mais de 3500 anos atrás! Mas que foi abandonada entre 1 110–1 080 a.C. durante o reinado de Ramessés XI (cujo túmulo foi o último dos túmulos reais do Vale dos Reis). Na sequência veremos o berço das estruturas egípcias, especialmente da técnica usada de simbolismo ou de ilusionismo para o mundo egípcio, quando um santuário em forma de Anúbis era o próprio Anúbis.

Foi simplesmente uma admirável experiência poder ler e estudar o livro de John Anthony West, escritor e egiptólogo renomado, já citado na página inicial de artesfatos.com,  e que trabalhou com uma linha de análise simbólica sobre a questão da arquitetura dos templos na Antiguidade egípcia, sendo autor de “A Serpente Cósmica: a Sabedoria Iniciática do Antigo Egito Revelada”. Uma série inteira foi dedicada nesse blog ao estudo dos vários aspectos da civilização egípcia abordados pelo livro, um dos quais eu procurei extrair as observações mais importantes que encontrei por meio bibliográfico: a de que a atividade social egípcia organizada estabelecia-se em torno dos símbolos. Mas seria a única?

Há inúmeros estudos em que os egípcios da Antiguidade foram tomados por supersticiosos. Aliás, o próprio termo com que foram conhecidos em todo ocidente, se deu pelo conhecimento grego que os chamava de Aegyptius, ou “egípcio”, como sendo também “feiticeiro, profeta, sábio”. Para se ter uma ideia da influência do Antigo Egito sobre a cultura ocidental, templos ou casas de sabedoria, transformadas em mastabas sob o domínio árabe, possivelmente foram de onde surgiu o gênero mais antigo de textos egípcios, o de “Instrução de um homem sábio ao seu filho”, constituindo-se uma literatura sapiencial, cuja origem hieroglífica seria representado por uma estrela, Sírius, posterior a um portal, o que, em si, esclarecia ao estudioso quanto à fonte celeste de seu conhecimento, sendo seba, ou sebait, possível origem da palavra sophos do grego, ou mesmo do sabeu do caldeu, para sábio. Exemplo, nesse sentido de gênero literário, são os Papiros de Prisse, em que se descrevem As máximas de PTAHHOTEP, vizir, servo do deus Ptah, com tumba em Saqqara, vivendo sob a Quinta Dinastia do Antigo Império egípcio, sendo que Ptah, parte de seu nome, representa o deus egípcio dos construtores, dos artesãos e dos arquitetos que se ocupavam com as tumbas e os sarcófagos, tais quais foram os artífices de Deir el-Medina no Período do Novo Reino, mil anos depois. Por todo esse longo período, como também depois dele, o conhecimento sapiencial foi passado de geração após geração como uma porta para a luz de uma sabedoria destinada às gerações futuras por uma consciência prevalecendo sobre os quatro elementos da physis, representada por um símbolo de um homem diante de uma porta para chegar a si mesmo, o que, em outros sentidos, se trataria de um conhecimento consigo tal qual a gnose de que as primeiras tradições esotéricas passam a se servir para esclarecer o caminho do ser humano diante de sua relação com o divino que o compreende na criação.

 

Templo de Hathor. Dendera, Egito. Por Ijanderson977 - Obra do próprio, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4430862

Assim como Aegyptius designava a um “feiticeiro, profeta, sábio”, Chaldaeus ou “caldeu” designava originalmente membros da casta governante da Babilônia como a um sacerdote ou astrólogo estudioso da região da Mesopotâmia, de onde também se origina o termo Mageia da qual deriva “mago” [magoi] e “magia”, uma palavra grega utilizada para designar rituais realizados por sacerdotes persas, – e não por acaso, – também foram essas culturas que compartilharam em comum um conhecimento dos astros relacionados à astrologia zodiacal*** que, à Era de Touro (4460-2300 a. C.), ocorreu entre Menfis, no Antigo Egito, e à civilização babilônica, na Mesopotâmia, durante a influência principiológica representada pelo deus Ptah, criador, enquanto deus Thot, na cidade de Hermópolis, representaria, aos gregos, o deus Hermes na Grande Cidade de Hermes, conhecida como Khmun pelos egípcios. Foi durante esse período da Era Zodiacal de Touro que imagens de gado apareciam frequentemente na arte do Período Pré-Dinástico (antes de 3 100 a.C.), assim como também imagens de mulheres com braços curvados e para cima semelhantes ao formato dos chifres bovinos, relacionando-se a uma veneração por meio de símbolos em que vacas representavam os cuidados da maternidade e à nutrição. Em Dendera, no Templo de Hathor, ensinava-se ciências astrológicas, com observação do cosmo egípcio e estudos matemáticos ímpares para cálculos diversos, sobretudo, a um método para um aperfeiçoamento humano por meio de princípios cósmicos imutáveis, chamado néter, atividade participante da criação e manutenção da realidade base à religiosidade egípcia. Ora, Maat como deusa da justiça e do equilíbrio existencial, tem uma continuidade principiológica pela deusa Hator, como mantenedora da criação, e, assim, provedora de conhecimentos que viriam a sustentar seus seguidores em Deir el-Medina onde habitariam “Sete Maate”, ou no “Lugar da Verdade”.

Templo de Hathor em Dendera, Egito. Coluna Hathor Por Steve F-E-Cameron (Merlin-UK) - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1634494

Assim como os Papiros de Prisse ensinavam sobre a literatura sapiencial, os Papiros Medicinais Egípcios foram resultados de um amplo costume de documentar os argumentos de um espírito científico de estudo que crescia entre escribas e sacerdotes durante a Antiguidade egípcia. Nesses papiros, detalharam-se doenças, descreveram-se diagnósticos, prescreveram remédios a base de ervas, trataram de cirurgias ou de encantos mágicos, supondo-se que teriam existido centenas de exemplares desses papiros, e que muitos desses teriam se perdido ao longo do correr dos séculos.

 

Mas é a escrita metodológica quanto a um fornecer de instruções relacionadas aos efeitos curativos de ervas e seus fins terapêuticos que, por efeito, é uma metodologia aplicada até hoje à realidade, tal qual aquela definida por útil na prometida ideia de que o “remédio contra a choradeira de crianças pequenas” funcionaria há 5 mil anos como atualmente pelas mesmas práticas aplicadas desde o Paleolítico quanto a uma instrução oral, forma pragmática para, então, ser transformada numa instrução por um registro gráfico, a exemplo da epigrafia tumular que provavelmente foi uma primeira forma de comunicação pós-morte. 

Os primeiros impérios comerciais: da pré-história ao ano 1000 a.C. Uma tradução didática de Marlene Suano (Universidade de São Paulo) em pdf  acessível de um artigo em inglês de título First Trading Empires: from Prehistory to 1000 BC. In: ABULAFIA, D. (ed). The Mediterranean in History. London: Thames and Hudson, 2003, p. 67-97. Clique AQUI para acessar, é muito bom para se ter uma ideia sobre as trocas relacionadas às regiões discutidas acima.

Ver também:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/tratado-medico-do-antigo-egito-revela-conhecimentos-de-3600-anos-atras.phtml

https://www.artesfatos.com/culturas-em-transicao/ritos-e-tradicoes-culturas-em-transicao/ritos-sagrados-diarios/

Para ir além:

*MAAT – https://www.artesfatos.com/artes-e-fatos/maat/ 

*** Recém descoberto um sinete de 7000 anos que pode provar a utilização comercial de trocas com inscrição (carimbo) não letrada, apenas riscos, para utilização de validação de troca, de domínio. VER 

https://www.revistaplaneta.com.br/sinete-com-carimbos-de-7-mil-anos-e-encontrado-em-israel/

Hathor – https://pt.wikipedia.org/wiki/Hator

Dendera – https://pt.wikipedia.org/wiki/Dendera

 

https://www.artesfatos.com/artes-e-fatos/origens-dos-conhecimentos/cosmico-corpo/

 

https://www.youtube.com/watch?v=R6eNiHj51zI&t=6s

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