Interpretação baseada em “O Segredo dos médicos antigos“, de Jurgen Thorwald, tradução do alemão por Alfred J. Keller e Horst Muller Carioba.

Compreender o elo de ligação entre a natureza divina do Faraó, um mandatário real do Período Arcaico do Antigo Egípcio, a eventos da natureza como as regulares cheias do Rio Nilo, é entender que o curso desse Rio levava consigo ciclicamente uma rica matéria orgânica de que dependiam os agricultores e pastores na sua foz inundada pelo degelo a quilômetros de distância dali, no alto das montanhas até às terras ribeirinhas do Delta do Nilo, extremamente férteis com suas cheias. Esse movimento cíclico, percebido como sistema de eventos aparentemente pré-ordenados, talvez tenha dado condições à compreensão de um evento sagrado, pensamento próprio à época, dentro de um sistema crenças em que Rei era uma divina presença que regulava à realidade de seus súditos, à representação da divindade que subsistia comum às tribos, daquelas especialmente dependentes das cheias do Nilo, para plantar e colher um dos seus principais meios de subsistência recém domesticado, o trigo.

Além disso, de acordo com Jurgen Thorwald:

As criações espirituais e técnicas deste primeiro período da civilização egípcia fazem parte das realizações de maior importância para o futuro da Humanidade: a invenção do calendário, a criação dos fundamentos da matemática, da agrimensura, que incluía a geometria, da irrigação artificial, da escrita e do papel” (THORWALD, p. 19)

Pelo autor, a genialidade do reinado das primeiras dinastias egípcias está contida no tão necessário poder de se prever eventos, a chegada da tão esperadas cheias anuais, a tal ponto que o soberano e a própria natureza se ligam por manifestação da vontade divina, sob a qual as tribos se unificaram.

Pela primeira vez dispunham de dados objetivos para fazerem o plantio e a colheita em datas registradas em um calendário de eventos compreendidos em razão da face divina do Nilo no corpo do soberano. Por isso, a preocupação com a vida futura desse soberano após a sua morte, a fim de manter a continuidade da regularidade que se pressupunha existir na presença do soberano, trouxe, talvez, a consideração de manter sua riqueza e seus domínios, mesmo aqueles que existirem posteriormente, colocando em seu túmulo também as colheitas de suas terras. Além disso, construiu-se um sistema de canais de irrigação com um melhor aproveitamento do conhecimento prévio relacionado às cheias, incluindo o volume delas e os períodos, algo que também auxiliou muito provavelmente a um pensamento de qualidade mais projetiva, porque, afinal, era com base nos registros de dados feitos em papiros e também na organização técnica de um sistema consonantal de 24 elementos, cuja escrita se desconhece a origem, que vamos entender seus ideogramas como uma maneira também bem prática de catalogação, contendo aí um lastro histórico dos fatos e dos conhecimentos a partir dos quais escribas e sacerdotes se serviam para auxiliar na administração do reinado.

Aliás, é sob o reinado de Zoser, soberano que “já era herdeiro de todas essas criações de que acabamos de falar”, que algo muda. Embora munido de todo um conhecimento anterior, não pode ele identificar os 07 anos de seca que ocorreram em seu reinado, e, com isso, teve que admitir seu aspecto humano, recorrendo ele mesmo às divindades.

“Foi o começo da decadência da divinização dos reis. Foi também o fim do direito exclusivo à sobrevivência após a morte. As pequenas pirâmides, à esquerda da grande pirâmide, ao fundo, e outras construções, eram os túmulos destinados aos grandes que viviam em torno do rei, aos quais ele tinha que conceder na vida após a morte, como prêmio pelos serviços prestados em vida. Doravante já não se tratava de simples servos que podiam ser mortos segundo os caprichos do faraó, tratava-se antes de seres humanos que aguardavam sua morte natural do mesmo modo que o próprio faraó”

E aqui estamos falando de eventos de cerca de 5000 anos atrás! Mas como descreve o autor, “esse era apenas o começo de uma evolução que progrediria cada vez mais no decorrer dos mil anos que se seguiram”, a se ter classes de dirigentes com direito à segunda vida e à conservação do corpo, desde sumo sacerdotes a mercadores enriquecidos com o comércio do Egito com as demais nações e tribos do período da Antiguidade. O soberano monarca já não governava mais como um deus, mas como um governante que se ocupa em manter sua posição pela luta ou, ainda, através de presentes às classes dominantes.

Estamos, em razão disso, num precedente histórico anterior ao Rei Salomão, em pelo menos dois mil anos, dentro dos quais, alguns supõe, o monoteísmo teve berço, sendo que muito do conhecimento egípcio da Antiguidade também tenha sido difundido entre os diversos povos que viviam do Oriente Médio à China.

Notas sobre o tema:

O alfabeto que usamos hoje é derivado daquele usado pelos fenícios, uma civilização que floresceu entre aproximadamente 3.500 e 2.300 anos atrás no Mediterrâneo Oriental. Eles usaram o que os estudiosos chamam de língua semítica, um termo que se refere a um ramo de línguas que remetem suas origens ao Oriente Médio, cada um compartilhando algumas palavras semelhantes. O primeiro precursor do nosso alfabeto foi escrito em línguas semíticas. Poucos textos escritos em línguas semíticas datam de 3.400 anos ou mais, no entanto.

De ARCHAEOLOGY NEWS NETWORK – O mais antigo exemplar de nosso alfabeto registrado (em inglês)

Bibliografia citada:

THORWALD, Jürgen. O Segredo dos Médicos Antigos: Egito, Babilônia, Índia, China, México e Peru. Trad. de Alfred J. Keller e Horst Müller Carioba. SP: Melhoramentos, 1990.

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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