Uma antiga parábola traz a ideia da Verdade e da Mentira como duas mulheres que se encontram às margens de um rio, quando a Mentira tenta enganar a Verdade:

A mentira então convidou a verdade para um banho no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:

– Venha, Verdade, vale desfrutar do prazer destas águas. 
Assim que a verdade, sem suspeitar, despiu-se de suas vestes e mergulhou, a mentira sorrateiramente saiu da água,  vestiu-se com as roupas da verdade e se foi.
A verdade, ao perceber o que se passara, recusou-se a colocar-se nas vestes da mentira. E por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar pelas ruas e vilas.

William Adolphe Bouguereau(1825-1905) After the Bath(1894)

O trecho da parábola acima nos convida a pensar sobre as vestes dos nossos diálogos, de como estamos nos vestindo e socializando o  imagético que somos no cotidiano, nas ideias com as quais nos elaboramos. Como trazer esse diálogo imanente, que é particular a cada ser,  e transmiti-lo compreendido, entendível, útil ao cotidiano das ações?

A ternura, não só falada, mas a praticada na vida da criança é muito importante para a mesma, por ser um exemplo em ação, por ser uma luz que permanece acessa; é algo necessário até que a criança chegue a sua maturidade em que possa escolher por si, com seu discernimento, suas ações em seu próprio roteiro de vida, utilizando a ternura como uma referência, um elemento norteador em suas escolhas. Essa é uma forma de revolucionar, através do exercício do amor, praticar o Amor que cura.  Eu acredito nesse movimento.

 Mas a criança, até que se liberte da condição de sua imaturidade, fica sujeita a quem é responsável por ela, e dessa forma a liberdade da criança se encontra condicionada a um roteiro de quem a assiste em sua história. Por isso, é tão importante a ternura quando se trata de uma forma de respeito à manifestação livre, de tal maneira que se compreenda que a manifestação da criança é, na verdade, a compreensão de quem é o adulto para ele mesmo. Em outros dizeres: Quando você vê o outro, criança, adolescente ou adulto, você o vê através de uma lente que é a sua, e  o “outro” existe e o vê através da lente dele.  E na socialização, no desenvolver do diálogo,  todo o pré-percebido,  se des-constrói.

 

O movimento da ternura está ativo, cabe a cada um decidir se quer desenvolver-se com ou sem ele, agora ou depois. A ternura conosco como construção de elos para nos re-conectarmos, re-tornarmos à fonte, ao Todo que nos nutre, é um desafio. Construir o diálogo que nos alimenta durante o percurso é tarefa de todo dia, é ação no cotidiano, é olho no olho do “eu com o consigo”, estar presente no “aqui e agora” em tempo integral. 

Toda vez que adentramos um universo,  muitas vezes saímos de outros sem nos darmos conta, deixando para trás, ou levamos conosco as nossas “vestes” com as quais estamos habitualmente vestidos, mas será que são as nossas ou as de outro ser?

 Com franqueza, dialogamos conosco ou estamos por aí  vestidos com a “roupa da verdade” quando, em essência, somos os “apropriadores” de roupagens que não correspondem as nossas em verdade. Diante das sombras que nos espreitam, é quando olhamos para dentro de nós mesmos, nos dedicando a ter um olhar sobre nosso “ser” interior com um cuidado amoroso, porque é acrescentando e reciclando as nossas vestes, que nos permite irmos em frente com a bagagem mais seletiva e organizada, ciente de nosso caminho e direção, quando saímos nuas das águas do rio como a Verdade, porque não devemos nada a ninguém, nem a nós mesmas.

Ana Balesca

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