Ler um livro que em suas primeiras linhas levam o leitor a interpretações extremamente novas sob o ponto de vista das leituras que a antecederam, é, sob muitos aspectos, um desafio.

Para cada parágrafo parece existir um desdobramento de mundos distintos daqueles em que nos concebemos. Detalhes, imaginados ou não pela autora, impressionam pela experiência que possibilitam ao leitor, o que nos leva a necessidade um exemplo.

Dolores Aschcroft-Nowicki, autora de “A Árvore do Êxtase: Rituais de Magia Sexual”, livro em torno do qual faço uma análise nas minhas últimas postagens*, ilustra o ser humano primitivo, pré-histórico, caçador e organizado em tribos, como um ser humano interagente com os planos mágicos de suas consciências quanto a uma realidade de mundo. Mais interessante: traz uma imagem fundamental à Tradição Wicca nos ritos de suas festividades anuais.

A autora exemplifica o que crê ter sido possível de ocorrer à época desse ser humano primitivo, marcado provavelmente por uma sociedade matriarcal, visto a importância da mulher e de sua fertilidade relacionada à terra, de onde colhiam alimentos enquanto, supõe-se, que os homens caçavam.

Cita ela que evidências demonstram que os caçadores tinham por costume o uso dos chifres dos animais abatidos por eles a fim de se beneficiarem das qualidades do animal quando vivo. Depois, trata da mulher a partir da referência de “Vênus de Willendorf“, para pensar o papel da sacerdotisa da Deusa-Mãe, ligando ambas representações pela fertilidade da qual dependiam todos da comunidade, fosse quanto à caça, fosse quanto à subsistência da coleta manual de alimentos sazonais.

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Caverna de Altamira - Arte pré-histórica

Sobretudo, especialmente quando a autora trata da ideia da união sexual entre o caçador que retorna da caçada e da mulher-mãe-matriarca de sua tribo, é que temos uma noção da possibilidade do quanto a ideia de se beneficiar das qualidades do animal que fora abatido, o caçador e/ou caçadora traziam consigo o animus da caça à comunidade, levando as características do macho e da fêmea que supre à vida com a gestação das novas gerações melhores amparadas na percepção técnica e operacional de sobrevivência ambiental.

Muito pertinente acrescentar que as Tradições Anciãs que se remetem a tempos míticos da existência humana, lembram da proximidade que há nos ritos arcaicos quanto à natureza da caça, do caçador e do sacrifício animal, que se traduz na espiação das religiões monoteístas das primeiras civilizações da antiguidade como povos organizados sob um mesmo parâmetro acima de inúmeras e de diferentes tribos de diversas tradições culturais. 

 

Hécate no Altar de Pérgamo, século II a.C.

Em “A DANÇA CÓSMICA DAS FEITICEIRAS – Guia de Rituais à Grande Deusa”, de STARHAWK, se encontra, na mesma linha de pesquisa de Dolores Aschcroft-Nowicki, uma visão desse possível ser humano tribal, presente pós a última era glacial que se sabe ter ocorrido nos correntes 20 mil anos:

O gelo recuou. Alguns clãs acompanharam o bisão e a rena até o norte. Alguns cruzaram a passagem terrestre do Alasca e chegaram às Américas. Os que permaneceram na Europa dedicaram-se à pesca e à coleta de plantas silvestres e moluscos. Cães vigiavam os acampamentos e os novos instrumentos foram aperfeiçoados. Aqueles que possuíam poder interior aprenderam que este aumentava
quando as pessoas trabalhavam juntas. À medida que os povoados isolados transformaram-se em vilas, xamãs e sacerdotisas uniram as suas forças e compartilharam os seus conhecimentos. Os primeiros 
covens foram organizados. Profundamente sintonizados com a vida animal e vegetal, domesticaram a região onde anteriormente haviam praticado a caça, criaram carneiros, cabras, gado e porcos, a
partir de seus primos selvagens. As sementes não eram somente coletadas; elas eram plantadas, para crescerem no local do assentamento. O Caçador tornou-se o Senhor dos Grãos, sacrificados quando da colheita no outono, enterrados no útero da Deusa para renascer na primavera. A Senhora das Coisas Selvagens tornou-se a Mãe da Cevada e os ciclos da lua e do sol determinavam as épocas para semear e colher e soltar os animais no pasto.
  

De maneira poética, a visão desse princípio fundamental da vida mística da comunidade baseada em homem e mulher como motores à renovação do espaço social fica evidente quando se destaca a domesticação dos animais como um processo interior de reconhecimento interno quanto à existência de um divino. Depois, esse divino lança frutos e semeia, e assim se espelha a relação humana com seu espaço de plantio e de colheita, domesticando-se também esse ser humano (“Domus”, “casa”).

Tal ser humano encontra sua casa interior, entendendo do ciclo que se processa na natureza com dias e noites, com estações de outros ciclos que se repetem e se mostram, dessa forma, capazes de interferir no comportamento humano, desenvolvendo-o para a resposta da necessidade que se reproduz.

Nesse sentido, um artigo de autoria de Daniela Cordovil, intitulado “Sexualidade, Espiritualidade e Conjugalidades na Wicca Brasileira”, descreve, como fator fundamental para a Arte Wicca, o cerimonial do casamento sagrado, cujo símbolo maior é a união da faca ritual (athame) inserido no cálice, ambas representações da união sexual mítica desse ser humano tribal representado pela união da Deusa e do Deus que estão presentes em seus ritos, sendo um princípio criador a tudo, pelo que diz a autora, para a Wicca na formação de seu calendário.

Aliás, pelo calendário wiccano, o casamento sagrado ocorre ao sabat de Beltane, primeiro de Maio no Hemisfério Norte e 31 de Outubro no Hemisfério Sul, no auge da Primavera, simbolizando a relação sexual efetiva entre o Deus e a Deusa no momento mais fértil.

Beltane também é conhecida por ser comemorada com fogueiras acessas, e danças das sacerdotisas em torno das mesmas, com uma liberalidade maior pelas práticas rituais envolvidas. Essa prática de dança em torno das chamas pode ter um sentido ritualístico de catarse e de transformação da obscuridade presente na estação do Inverno, exigindo-se uma casa interior, para a propagação da vida em seu curso dedicado ao ápice da existência: o gozo.

A mulher fértil, matriarca de gerações de seres humanos conscientes dos planos das existências sutis, muito provavelmente representada pela estatueta “Vênus de Willendorf” de oito mil anos atrás, exibe, em razão de suas qualidades físicas, as atribuições de uma natureza reprodutiva. Se presente em rituais de proteção de parturientes, rituais de fertilidade dos campos, ou em rituais de recuperação de saúde, afastando-se, com ela, os maus-espíritos, nunca o saberemos.

No entanto, no mistério dos Cultos do mundo antigo em que se tornaram iniciáticas as tradições secretas e vivenciais de doutrinas que continham em seu núcleo um mito, percebe-se um funcionamento interno a muitos das religiões politeístas e monoteístas posteriormente organizadas. 

Um dos mais antigos cultos conhecidos refere-se ao Templo de Elêusis, construído por volta de 1600 a. C., mas com uso ritualístico provavelmente do início da Idade do Bronze, cerca de 3000 a.C., ou ainda mais antigo, fim do último degelo em torno de 12000 a.C.

Os mistérios de Elêusis (também conhecidos como mistérios eleusinos) eram ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas Deméter e Perséfone, celebradas em Elêusis, localidade da Grécia próxima a Atenas. De todos os ritos da Antiguidade Grega, os mistérios eleusinos foram os considerados de maior importância dentre os mitos e os mistérios do Panteão grego a ponto de serem transferidos, via Império Romano, em práticas iniciáticas modernas, dos quais seus ritos e crenças secretos só se transmitiam a iniciados[1]

Depois do inverno, os rituais dos mistérios eleusinos celebravam o regresso de Perséfone, como o regresso das plantas e da vida à terra através das sementes que a deusa trazia ao renascimento de toda a vida vegetal da Primavera. Se a Grécia da Antiguidade reverenciava a deusa da agricultura, Deméter, essa terra-mãe que dá a sua maturidade uma inteligência divina, e, assim, sendo mãe dos deuses da criação cosmogônica, ocorre seu culto no Panteão Grego de modo posterior à Hecate, deusa da qual sacerdotes já sabiam doutrinas esotéricas oriundas do Antigo Egito.

Deusa das terras selvagens e dos partos, por outro lado, Hecate era geralmente representada segurando duas tochas ou uma chave, e em períodos posteriores, na sua forma tripla: Donzela-Perséfone, Mãe-Deméter e Anciã-Hecate. Estava associada a encruzilhadas, entradas, fogo, luz, a lua, magia, bruxaria, ao conhecimento de ervas e plantas venenosas, fantasmas, necromancia e feitiçaria.

Em “HEKATE – sua sagrada Incêndios. Explorando os mistérios do Torchbearing deusa das encruzilhadas”, de Sorita D’Este pela Avalonia, temos as visões quanto à compreensão da deusa Hecate no que diz respeito aos mistérios desta deusa antiga chamada, também, por Torchbearing, e que é celebrada através da queima de fogos sagrados até hoje em todo o mundo.

De todos os deuses gregos, é Hermes o mais comumente associado a Hecate que, como ele, tem a habilidade de mover-se entre reinos, e está associado com o movimento e a comunicação, à ligação por meio das estradas, de acórdão, do comércio, do roubo, da linguagem, e da escrita. Hermes, deus dos viajantes, muito provavelmente tenha origem em conhecimentos das tradições egípcias ligadas, por sua vez, a Thoth, deus maior do Panteão Egípcio, representante da escrita e do conhecimento organizado ao Estado Egípcio durante suas dinastias milenares.

Divinidade sentada do fim do Império Hitita, século XII a.C.

No entanto, a mais antiga referência literária a Hecate é encontrado no cosmológica Teogonia de Hesíodo, do sétimo século a.C., e, portanto, distante mais de 6000 anos do início do Neolítico quando se tem uma voluptuosa estatueta de uma mulher entronizada entre duas leoas como uma possível representação de Mãe-Deusa chamada Kybele, (Katalhoyuk deusa, Katalhoyuk], de culto provável durante a idade do Bronze, cerca de 3000 a.C, ou seja, bem no período anterior à Antiguidade Clássica em que as civilizações mesopotâmicas e egípcias alcançam amplos poderes.

Na ascensão do império Hitita, em 1700 a.C., onde, hoje, se encontra a Turquia, Líbano e Síria, um conjunto de crenças e de práticas religiosas do povo hitita sobreviveu através das narrativas que foram incorporadas à mitologia como elementos que poderiam levar a considerá-las partes de uma religião organizada, constituindo documentos religiosos um corpus no qual os jovens escribas eram treinados para a administração real, sendo burocratas na organização das responsabilidades reais em áreas que poderiam ser consideradas parte da religião nos tempos atuais: organização do templo, administração do culto e relatórios de adivinhos, compõem o corpo principal dos textos sobreviventes.

Não nos parece à toa que também na região de Anatólia se desse a fundação do Templo de Elêusis a partir da prática ritualística dos serviços sacerdotais em templos, fossem iniciados homens ou mulheres, começando-se pela cultura micênica em que por volta de 1500 a.C. surgem duas figuras femininas segurando cobras, representação minóica que terminará com a queda do Império Hitita em 1180 a.C., período que dá origem aos estatos “Sírio-Hititas”, que terminam no século 7 a.C., datando do século posterior a eles a aparição de Hekate como “A Protetora das Entradas” numa inscrição em altar do Templo de Apollo Delphinius em Mileto.

Estados Sírio-Hititas, também conhecidos como Estados Neo-Luvitas ou Neo-Lúvios, é o nome atribuído a uma série de estados (reinos, principados e cidades-estado) que existiram no Sudeste da Anatólia e Norte da atual Síria entre a queda do Império Hitita, no início do século XII a.C., e a conquista dessas regiões por parte do Novo Império Assírio, do século IX a.C. à primeira metade do século VII a.C., quando os últimos estados neo-hititas foram extintos, conquistados por esse império.

Sobretudo, sabe-se que as rainhas anatólicas tinham um papel substancial em termos de autoridade civil e religiosa, comercial e administrativa, como aliás mostram inclusivamente os seus códigos jurídicos. Por que esse carácter não se refletiria na formulação religiosa da divindade da deusa? 

Compreender a mitologia hitita a partir da leitura de gravações em pedra que sobreviveram até os dias de hoje, decifrando-se uma iconologia representada em selos de pedra, é interpretar um cotidiano dos templos para além das imagens de divindades que os hititas adoravam através das pedras Huwasi, tratadas como objetos sagrados. Dessa forma, seus Deuses eram, muitas vezes, representados sentados sobre as costas dos seus animais respectivos, ou eram representados em sua forma animal, algo fortemente influenciado pela mitologia mesopotâmica e egípcia.

 São os últimos séculos da Antiguidade Pré-Clássica que correspondem ao período da queda desses estados Sírios-Hititas, ou seja, um período de transição da tecnologia que se passa da idade do Bronze para a do Ferro por volta do século 7 a.C. (*AMARAL)

Não se sabe a etimologia do nome Hecate (Ἑκάτη, Hekátē), mas ao menos de seu uso dado por Hesíodo, (750-650 a.C.) e de seu significado em grego relacionado à vontade, vários são os pesquisadores que identificam “o nome e a função de Hecate como aquela ‘por cuja vontade’ as orações são atendidas.”, ocorrendo sua invocação em entradas de templos. Um artefato mais antigo dedicado a ela, em terracota, foi encontrado em Atenas, no estilo de escrita do século VI a.C.: a deusa aparece sentada em um trono com uma grinalda em torno de sua cabeça, sem qualquer atributo ou caractere, exceto uma referência especial a sei nome como uma inscrição, que prova como sendo a mais antiga menção datando o conhecimento em Atenas antes da invasão persa[15].

Hécate tripla e as Graças Ática, século III a.C., Gliptoteca, Munique

Bibliografia:

 

CARDOSO, Bianca Miranda. Depósitos de sacrifícios humanos e “terrenos de enterramentos formais”: o caso Gordion e a população Gálata. Dissertação de Mestrado em História, Uinversidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2014. Disponível e acessado em novembro de 2018 AQUI (http://www.historia.uff.br/stricto/td/1802.pdf)

CORDOVIL, Daniela. Sexualidade, espiritualidade e
conjugalidades na Wicca Brasileira. Universidade do Estado do Pará – Belém, Pará – Brasil. (http://www.scielo.br/pdf/rs/v37n1/0100-8587-rs-37-1-00085.pdf – Acesso novembro 2018, AQUI)

SANTOS, Maria Leonor Figueira. Arqueologia do Império Hitita: um estudo sobre os seus vestígios arqueológicos e documentais na Síria setentrional e ocidental. Dissertação para Mestre em Arqueologia pela Faculdade de Ciênciais Sociais Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Portugal. Disponível e acessado em novembro de 2018 AQUI

 

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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