Estados de gnose

Dando sequência aos estudos que levaram à escrita de “Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias”, vamos tratar aqui dos “Estados de gnose” a partir da ideia de que com a Revolução Cognitiva iniciada na espécia Homo sapiens há 40 mil anos atrás, o ser humano desperta para capacidades instintivas-intuitivas-conscientes que o tornaria capaz de transitar entre inúmeras dimensões com aspectos distintos tanto no tempo quanto no espaço, é quando uma verdadeira Odisseia humana se inicia para a espécie. 

Por muito, tenho me ocupado com os estudos quanto aos “Estados de civilidade”, já que se trata do aspecto de uma sofisticação humana relacionada a um espaço cultural e muito presente diante de sociedades hierárquicas constituídas, sobretudo, durante o período, no Antigo Egito, de preponderância do deus chamado Ptah, deus egípcio que cria os espíritos (ou Ka) dos outros deuses, o mundo e as suas criaturas, e que era, também por isso, denominado Ta-tenen (Colina Primordial), o que, em outras palavras, está representada como a criação divina sobre o mundo religioso e humano.

O que acontece, porém, é que o berço das civilizações conhecidas se trata de uma visão de mundo como um modo de vida, como da questão da passagem entre estados de consciência de homens primitivos coletores e caçadores, para um modo de vida consciente quanto a um “ser” humano que se desenvolve por seus próprios meios culturais e intelectivos.

“Gnose” significa algum entendimento de uma ligação íntima e individual, consistente à busca de sentido interior em que o ser humano se ocupa quanto à sua existência, por uma “experiência consigo”, interior*, e que encontra um aspecto divino de sua ligação à criação no encontro da criação com o Criador. No Antigo Egito, um aspecto divino como um princípio do deus Ptah, se referia a ser esse deus o construtor das formas, por isso ele se ligava às funções da atividade da arquitetura e da construção. E, ao que me parece, os estudos gnósticos instituídos e organizados pelas tradições de escribas e de mestres vem justamente desse período que antecede 4000 anos a Cristo, porque entre 4000 e 3000 anos a. C. também se consolidam as civilizações organizadas em hierarquias de poder pelas quais constituem fronteiras e determinam seus domínios. Nesse período, organizam-se arquivos, formam-se letras à lei, constituíssem livros sagrados e outras regulações de convivência conforme se valem as tradições dos povos, revelando-se Estados Teocráticos.

No entanto,  conversando com Ana Balesca, percebi que a gnose ou o Estado de gnose seria uma experiência organizada muito anterior a da civilização, para o ser humano, quanto à sua consciência de meio, ou seja, uma consciência de si sobre sua capacidade plástica de desenvolver um aprendizado e compreender, com isso, um excepcional modo de preservar sua sobrevivência.

Qual melhor maneira de manter uma compreensão do mundo senão pela visão do que a história contada nos traz?

A expressão da experiência que a narrativa nos revela à leitura seria um exemplo básico para a compreensão de como as experiências culturais, desde a mais remota existência cognitiva humana, reproduziam-se no tempo e no espaço como contínuas e, assim, relacionadas a um estado de aprendizado.

Aqui tomo, da data de hoje, um entendimento que me é hipótese na existência, o que é, de exemplo, a história de Judas Iscariotes na narrativa histórica de Cristo crucificado, e a quem coube o papel de traidor de algo sagrado por uma quantia “vil de metal”, que até mesmo os mortos, nos campos, se recusaram a receber do traidor. A condenação de Judas é a condenação de quem, então, trai algo suficientemente íntimo em/a si e a tal ponto que perder essa ligação, significa, também, perder o próprio sentido de existência, culminando numa forma de expiação do papel do condenado. Numa única e marcante passagem se revela de maneira sutil as experiências relacionadas às condutas humanas, foco do que se quer consciente pela experiência intelectual relacionada ao sentido de justiça divina e ao de intercessão por meio de forças exteriores e superiores às humanas.

Então, como pensamento que posso chamar de crístico, penso que o corpo consagrado na ideia de Igreja, como a sagrada Eucaristia, tenha uma realidade própria a constituir o sentido da experiência humana sobre a religiosidade que se passou a se formar na crucificação e na ideia de expiação dos pecados. E, dessa maneira, pelo arrependimento, o ser humano teria consciente os desdobramentos morais e existenciais relacionados ás suas faltas diante da criação. O que, no entanto, como método, já teria se formado anteriormente e há milhares de anos como a um Estado de gnose humano. 

* A verdadeira definição do termo “gnose” é a experiência mística do Divino diretamente em si mesmo. É a realização da nossa verdadeira natureza que não pode ser discernida por intermédio de dogmas ou doutrinas intelectuais, mas somente pela experiência. As crenças e os segredos supremos dos cristãos gnósticos constituem um mistério para a maioria das pessoas.

*Citado de Gardiner, Philip. “Gnose: a verdade sobre o segredo do templo de Salomão”. Introdução; trad. Rosane Albert. SP: Editora Pensamento, 2006; p. 06.

Ptah, deus egípcio. Princípio construtor, guia e protetor dos artesões e dos arquitetos no Antigo Egito. MAIS AQUI 

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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