Uma grafia para além vida

A consciência da permanência além vida, inscrições em que o ser humano se percebe diminuto em relação à existência que o precede, que o sustenta, e que se mantêm depois de seu tempo transcorrido.

 

Rá, assim como seu símbolo de deus-faraó, encarnaria o significado da vida terrenal com um sentido de ascensão das forças masculinas, tal qual consciência divina e fálica em que tudo se estabelece sob seu domínio de entendimento, ou ainda, sob um poder de existir em intra realidades dimensionais como em um transe, quando, frequentemente, se atingiria um estado de mudança de consciência com transformações na mentalidade da pessoa tal qual outra personalidade lhe houvesse tomado o controle, e da qual eram testemunhas escribas e sacerdotes.

Do artigo “Cura e saúde humana”, acessível AQUI

Em toda reflexão em que nos colocarmos a fim de esclarecer uma “Cosmovisão Egípcia”, procurando, assim, alcançar um panorama da sociedade egípcia na Antiguidade, o mais destacável dos temas se transpõe para outras civilizações no mesmo período, chegando até a ser atualizada à data presente numa ideia, no mínimo, animadora: a de que estamos com acesso à história de pelo menos três mil anos de um registro gráfico com uma escrita que começa com uma grande difusão de conhecimento por meio de inscrições em pedra, em cerâmica, em pergaminhos de couro, de papiro e de papel; ou seja, de algo escrito a partir de um fenômeno relacionado à gama de conhecimentos que levou impérios a serem erguidos pelo “Crescente Fértil”, da pré-história à história, sendo uma região que, hoje, vem sinalizada do Oriente Médio ao Egito como palco determinante à história recente da humanidade, já que de lá partiram alguns dos escritos sagrados que produziram, de sua cosmogonia, alguns dos povos transformados em nações.

 

Mas a impactante revelação do evento da morte sobre a consciência da existência humana perceptiva, desde um possível primata ancestral, deve ter sido mais determinante do que a escrita ao desenvolvimento humano, principalmente quanto a um raciocínio de evidentes conhecimentos reproduzidos por meio de registros materiais, pois, foi dessa forma que importantes vestígios de materiais fúnebres foram encontrados durante o transcorrer de milhares de anos, fornecendo um testemunho “físico” de uma percepção que o ser humano interpretou como seu espaço simbólico, sepultando seus pares, por qualquer estalo inicial, com alguma compreensão quanto à morte como porta de passagem a outra realidade extracorpórea, sendo esse fato o objeto de culto em variadas tradições como podemos entender pelo artigo “Dia dos mortos de antigas tradições”, acessível AQUI!

  • Ver também A “PORTA” COMO VEÍCULO DE PASSAGEMa questão do “limiar” na concepção egípcia de morte; artigo de Keidy Narelly Costa Matias, em 1o. Colóquio Internacional Histórias e Espaços; acesse clicando AQUI

Mas como entender esse apego pela registro gráfico, dotando-o de algum valor transcendente à própria natureza física de ser humano que o produz sob inscrições de entradas e portas, como ocorreu com estelas e talatats, pequenos blocos de pedra na base das construções no Antigo Egito, ou em epigrafias tumulares, legais ou históricas? 

Inscrição cónia – Estela da Idade do Bronze – Imagem por Henrique Matos, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=21317120

Há muito o que se aprender a partir de um vestígio de ancestralidade tumular ainda hoje em pleno século XXI, isso porque ainda mais e de uma maneira não muito comum, o tema da morte percorre toda grafia da história humana como um livro de cabeceira em que o leitor se investiga a partir do primeiro traço da escrita, observando-se quanto à expressão consciente da vontade que lhe quer comunicar algo e à ideia de que alguém, em algum momento, compreenderá a mensagem e o que há de ficar registrado através dela.

Uma tese na área de arquitetura se revelou muito relevante à compreensão das grafias tumulares e dos ícones que correspondem a uma concepção de época, geralmente encomendada pela parte da sociedade com um maior poder político e econômico. De Cibele de Mattos Mendes, a tese intitulada “A Cantaria de Lioz na Arquitetura Funerária de Salvador no Século XIX” nos guia à interpretação das epígrafes tumulares, aos objetos representados com atributos relacionados ao mundo dos mortos, o significado de alguns ornamentos representativos de famílias quanto ao destino dos restos mortais de seus entes queridos. Em especial, na página 20 da tese já citada, nos seus dois último parágrafos, a autora acentua que, enquanto o homem viveu de forma nômade:

 a “morada” dos mortos foi a única que [o homem] encontrou um lugar fixo, exprimindo uma paragem no tempo, uma marcação da paisagem. As primeiras sepulturas parecem ter surgido no Paleolítico Médio, constituindo por vezes verdadeiros cemitérios – para o homem de Neanderthal, “[…] a morte fez-se consciente cem mil anos antes de nós” (AUZELLE, 1965, p.22)
Ao serem implantadas próximas do espaço dos vivos, as necrópoles foram edificando marcas territoriais de enorme valor material e simbólico, construindo uma
paisagem cultural em que se confrontava a arquitetura da morte com a arquitetura da vida. E a perenidade dos monumentos funerários sobre as outras construções é, certamente, um dos indicadores mais evidentes da importância desde sempre atribuída à proteção dos mortos e a seu culto. 

 De sua tese bem documentada e ilustrada acessível pelo link disponível
 https://ppgau.ufba.br/sites/ppgau.ufba.br/files/tese.ppgau.cibele.2016.pdf
 

Nenhum outro evento é tão determinante à concepção humana de consciência de sua existência quanto o é a morte. Aliás, as práticas funerárias percorrem a existência da humanidade produzindo vestígios que demonstram hábitos culturais de vestuário, de alimentação e de crenças relacionadas a um estado pós-morte. Em um estudo arqueológico das práticas mortuárias com origem indígena, por exemplo, se resgata, à luz de algum conhecimento, os artefatos pré-históricos de sepultamentos humanos no litoral paulista. Destaca-se, nessa tese de Sergio Francisco Serafim Monteiro da Silva, da Introdução, a passagem:

Durante a vida o ser humano valoriza seus pertences, alimentos e agrados, mas quando morre, deseja que todos eles o acompanhem, sendo oferecidos ao seu duplo, que continua. A vida dos mortos está imbricada na dos mortais, sendo-lhe análoga e estabelecendo, através das práticas funerárias e sua sequência, trocas simbólicas normalmente imperceptíveis ao arqueólogo

 

E as práticas destes ritos funerários ao longo da história possibilitou um registro anterior à escrita, dado que a forma de epígrafes simbólicas inscritas nos objetos depositados junto ao corpo, como registros feitos de galhos a objetos ornamentais, foi possivelmente de sentido metafísico, incluindo, para sua representação, penas de ave ou um instrumento de trabalho pelo qual fosse o morto reconhecido em vida. 

Saiba além, adquira seu exemplar!

Para ir além:

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2019/08/arqueologos-revelam-quais-eram-os-habitos-de-mulher-que-viveu-ha-22-mil-anos.html

 

Práticas funerárias 

Cisneiros Silva, Daniela. Práticas funerárias na Pré-História do Nordeste do Brasil; acessível em https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/7819 

SILVA, Sergio Francisco Serafim Monteiro da. ARQUEOLOGIA DAS PRÁTICAS MORTUÁRIAS EM SÍTIOS PRÉ-HISTÓRICOS DO LITORAL DO ESTADO DE SÃO PAULO; em formato pdf disponível para baixar pelo endereço:

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-11072007-151325/publico/tdeSFSMS.pdf

Notas relacionadas:

 

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2018/08/urnas-funerarias-de-500-anos-sao-encontradas-na-amazonia.html

https://www.archaeology.wiki/blog/2019/07/31/regional-epigraphic-cultures-across-the-ancient-globe/

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2019/07/cidade-de-10-mil-anos-e-descoberta-perto-de-jerusalem.html

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/bilionario-russo-quer-acabar-com-morte-ate-2045.phtml

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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