A arte mística egípcia

Arqueologia das culturas

A arte mística egípcia

A antiga ciência da epigrafia em que se estudava a forma como o Homem, em determinado momento, registrou ideias sobre superfícies para as transmitir aos tempos vindouros.

Gudea, príncipe do reino independente de Lagash no final do terceiro milênio a.C. sendo “o construtor de templos” com o que se supõe a pedra fundamental das edificações sagradas – dedicada ao deus Ningirsu, chamado Arquiteto de Planos; Gudea foi conhecido por sua piedade e intensa atividade como um construtor de templo (bronze: n. 1908,0417.2, AN32433001 do acervo de imagens do Museu Britânico) britishmuseum.org

Penso na existência de algum evento ímpar por volta do terceiro milênio antes de Cristo, algo como um lampejo que tenha potencializado a consciência humana até a alguma compreensão maior sobre sua capacidade de preservar alguns de seus entendimentos temporais num decorrer de gerações através da escrita que, aliás, ocorre em meio ao uso de traços a transmitir uma ideia como a um ideograma símbolo a representar uma palavra ou um conceito abstrato, um fato ou um desígnio que se quisesse concreto, como ocorria, provavelmente, em relação ao uso do hieróglifo no Antigo Egito, ou ainda como um sinograma, em que se representa um símbolo ou grafema único contendo um sentido de um conceito completo, concreto ou abstrato, da realidade, ou ainda, como a um pictograma, onde todas as expressões escritas tiveram berço, porque são as que foram expressas por meio de símbolos gráficos representativos de algo de concreto (picto), preservando-se uma ideia da coisa representada.

Nas mais remotas origens, essas inscrições foram feitas em superfícies como os de ossos de animais, ou sobre barro úmido que moldado à “tablete”, fazia-se inscrições geométricas na demonstração de um sistema de pré-escrita muito anterior a 3000 a.C. como, também, da existência de inúmeros objetos de natureza mágica correspondentes ao período pré-histórico do Neolítico, e que trazem à tona uma ideia de uma expressão pré-histórica da arte: uma questão que se trata da experiência singular, própria ao indivíduo consciente de poder transmitir conhecimentos, e de manter sob aspectos figurados e representativos inscritos em meio físico, algo que comunica, por meio de uma mesma linguagem, ponte em comum, dois quaisquer sujeitos pré-históricos, possivelmente não-sincrônicos e uma vez presentes ao mesmo tempo da inscrição, quando, então, se considerando essa, uma “proto-escrita”, uma forma de combinação primária, arcaica e pragmática quanto à comunicação possível entre esses dois sujeitos de uma mesma tribo, reconhecidos pelos mesmos tipos de comportamentos como por hábitos de conhecimentos comuns, e, entre esses, o de conhecer os rastros sinalizados a apontar uma geografia da região, ou um lugar com alimento ou de algum risco, como a presença de um grupo rival.

Ora, sabe-se que o desenvolvimento de peças cerâmicas ocorre por volta de 9 mil anos a. C. no chamado “Crescente Fértil” durante o período pré-histórico, só que daí de 9 mil anos para os tempos atuais ocorre um maior controle de uma produção que passa a ser feita em fornos para as mais diversas finalidades, com variantes formas ao uso, por exemplo, como jarras de água ou vasos longos e altos para conservar alimentos como os grão que passavam a ser produzidos nas terras férteis. (Um ótimo exemplo nesse sentido e não muito distante da região é o que traz o artigo “Um recurso ritual com elementos de copo de sino em um acampamento caçador-coletor do neolítico tardio no nordeste da Polônia” em inglês, sendo “copo de sino” é a parte superior de vasos cerâmicos com certas características que se estuda pelo artigo. Uma outra ótima referência é o livro de título “História das Agriculturas no mundo: do Neolítico à crise contemporânea” de Marcel Mazoyer e Laurence Roudart, pode ser acessado em pdf pela UNIFAL-MG, clicando AQUI.)

Também variadas foram as formas de se ornamentar, para fins ritualísticos, os recipientes criados em barro, no que é de se supor plausível que já existissem, antes disso, superfícies como as de pele de animal para dar suporte às inscrições com algumas das finalidades mágicas rituais, epigráficas, sobre as peças cerâmicas que já conservavam estilos próprios relacionados aos templos a que pertenciam, recebendo, nesse sentido, algum elemento gráfico significativo, sinal distintivo quanto a região de sua origem ou de que povo se originava como penso que tenha ocorrido quanto aos sinetes descoberto em Israel, recentemente, e que serviam, durante o “Primeiro Templo”, a selar as entradas de silos de alimento, funcionando como uma forma de controle e de conferência da integridade do abastecimento local. Isso há 7 mil anos atrás! Ver matéria com mais detalhes clicando AQUI.

Sobretudo, foi só em razão de uma escrita sinalizada pela origem numa literatura sapiencial, que foi possível a transformação dos códigos gráficos regulares em templos e tumbas, constituírem-se em ordenações ao estado teocrático na Antiguidade egípcia, pois foram, também, as leis fundamentais desses estados que se transmitiram poderes da gestão dos reinos egípcios, dados os seus domínios pela forma que se tornava um bem contábil sobre as atividades dos camponeses que, por sua vez, resumiram-se a cultivar as terras chefiadas por esses conselhos de anciãos, isso no Egito Antigo. 

No Antigo Egito, aliás, eram os chefes dos conselhos de anciãos, alguns dos quais sacerdotes iniciados em algum dos templos de veneração, os que organizavam a coleta de impostos e o recrutamento obrigatório dos trabalhadores especializados nos “projetos reais”, (foram chamados Felás: os camponeses do Antigo Egito que trabalhavam presos à terra e em obras públicas) enquanto os escravos eram utilizados nas terras pertencentes aos templos numa hierarquia em que os faraós eram os reis de todo o país e o seu conselheiro principal chamava-se vizir, dirigindo todos os outros burocratas que administravam as regiões de um vasto domínio.

Como a economia do Egito Antigo permitiu a construção das caras pirâmides… – Veja mais em https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2021/01/31/egito-piramides.htm

Hieroglifos em Karnak, Luxor, Antigo Egito.

Penso eu que foram dos primórdios tempos da grafia humana que se desenvolveu uma consciência quanto a uma “inscrição sobre uma superfície”, e isso, muito provavelmente, há milhares de milhares de anos atrás. Porque me parece que uma inscrição se relaciona mais a necessidade humana de comunicar eventos possíveis, perigos ou fontes de alimentos do que a uma necessidade de comunicar uma autoimagem, de si, que se refere determinante às culturas de grandes grupos humanos históricos, ou ao menos até pré-histórico período do Neolítico. Afinal, a necessidade de se comunicar com um além vida, de tal sorte que o futuro, como o chamamos hoje, fosse também um estado acessível pelas técnicas ancestrais de uma experiência “gnóstica-xamã” que correspondia, talvez, a ser uma simples mensagem que alguém carregava consigo ali, no risco feito à parede de uma caverna pelo hábito de passar em uma região e sinalizar a outro membro sobre o que há em torno daquele abrigo, como onde há comida, quando esse “ali”, indicado por um traço distinto qualquer, compõe o evento futuro pelo passado da experiência do sujeito, aquele que, em si, no momento em que interpreta o sinal riscado como signo que se estabelece com alguém possível, passa a comunicar com um sentido de existir por meio de uma escrita.

Pois um sentido da escrita é desenvolver uma ação que possa ainda, ou não, ter existido na condição imprescindível de representar  um significado como uma mensagem qualquer, se admitirmos que existe uma vontade e há uma intenção motiva e motivadora em produzir uma mensagem sob qualquer meio físico que fosse, em qualquer tempo, viável e possível à interpretação.

Por que não supor que superfícies não tão sofisticadas como pergaminhos produzidos em couro de animal de rebanho ou mesmo de caça, tenham sido feitas para serem mensagens como das paredes das cavernas tal qual uma só superfície preenchida com uma mensagem não sincrônica às presenças de emissor e de receptor? São alguns dos objetos de natureza mágica que, se assim os admitimos, admitimos também que o entalhe com significado interpretado a posteriori sobre qualquer que seja a superfície, tenha feito alguma diferença para transformar substancialmente todas relações adjacentes. 

 

Exemplo de Arte Rupestre Norte Americana, em Sedona: "espiral"

E é aqui que se supõe que “A Arte Mística Egípcia” tenha se iniciado no que se refere à arte da epigrafia, já que foram os egípcios alguns dos primeiros povos a inscrever ideogramas em paredes tumulares à finalidade, dentre outras, de preservar uma memória do morto à passagem além-vida, estado em que tudo se compreendia para além da existência conhecida.

Contudo, o estudo de inscrições antigas, ou “epígrafes”, gravadas em matérias sólidas (tais como a madeira, rocha, ossos, metal), visando obter a decifração, interpretação e classificação das inscrições não tem mais uso no meio científico atual**.

Mas como forma de estudo místico, a epigrafia se divide segundo o seu objeto de interesse em religiosa e profana, além de se dividir na tipologia de inscrições que se estuda: Inscrições votivas, dedicatórias ou sacras que se oferecem e dedicam à Divindade ou aos Santos; Jurídicas, legais ou decretosPúblicas ou monumentais que se gravam em construções de caráter público e oficial, por exemplo, edifícios, arcos de triunfo, pontes, pedras, etc. expressando o seu objeto; Históricas que geralmente são comemorativas de um feito importante; Honoríficas ou dedicadas a honrar a memória de uma personagem distinguido; Funerárias ou sepulcrais que se referem à morte de alguma pessoa; Mistas ou comuns, de uso vulgar, tesselas, vasilhas, moedas, etc.**

 

Exemplo de epigrafia "Pública ou Monumental", detalhes da Agha Bozorg Mesquita, Irã.

Qualquer significado que se queira transmitir só se mantém com algum significado se há quem o interprete assim. Essa pode ser uma das razões de terem, os egípcios, alguma forma técnica um tanto pioneira na arte de uma epigrafia tumular relacionando uma manutenção de um modo de vida que fosse próprio às atividades de um mundo além-vida, porque, afinal, foram necessários sacerdotes (Aegyptius, ou “egípcio” – acesse AQUI) para manter os ritos destinados ao além-vida e, assim, se dessem ações de trocas necessárias às relações simbólicas que correspondem aos favores trocados entre “homens e deuses”. Essas são, por sinal, as relações mais antigas conhecidas para a manutenção dos modos de vida cultural, fossem nômades ou sedentários, tribais ou de domínios imperiais.

Parece-me que objetos de natureza mágica deveriam ser comuns entre os povos nômades, já que eventos, ao acaso, trariam experiências das mais diversas formas e em uma certa conformidade com as paisagens pelas quais os povos nômades se estabeleciam temporariamente em suas rotas dentro de um movimento que estava, por suposto, sob as ordens de conselhos tribais.

Penso, especialmente, na ideia de que Göbleki Tepe, discutida anteriormente, refletia-se em uma das regiões de referência para a qual povos migravam regularmente a fim de trocar mercadorias das mais diversas procedências desde o Período Paleolítico. Ver, por exemplo, outra possível região nessa matéria abaixo: 

https://www.revistaplaneta.com.br/sitio-no-deserto-em-israel-indica-intercambio-cultural-entre-homo-sapiens-e-neandertais/

Nas próximas postagens continuamos a discutir a epigrafia tumular e o debate em torno da Arte Egípcia para se chegar à reflexão de uma “causa” mística que se revelou chave da constituição dos estados teocráticos.

Detalhe de epigrafia pública

Para ir além:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Logograma

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ideograma

https://pt.wikipedia.org/wiki/Caracteres_chineses

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pictograma

**https://pt.wikipedia.org/wiki/Epigrafia

Mazoyer, Marcel; e Laurence, Roudart. “História das Agriculturas no mundo: do Neolítico à crise contemporânea” Brasília, DF; NEAD, 2010. Acessado em pdf 18.06.2021, pelo link disponível clicando-se AQUI

De European Journal of Archaeology – vários autores: “Um recurso ritual com elementos de copo de sino em um acampamento caçador-coletor do neolítico tardio no nordeste da Polônia” título anterior lincado, acessado em 18.06.2021

Imagens ´pixabay.com

Egídio Mariano

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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