portas, janelas e braços abertos

Em Culturas ancestrais de renascimento nosso caminho para uma interpretação das primeiras grafias das civilizações e das experiências de culturas buscou demonstrar a ideia de que somos resultados de aprendizados sempre contínuos como processos de significados pessoais e coletivos.

Ao que subimos ao “sótão”, observamos que as “quinquilharias” de família “se atualizam” pela memória dos que conheceram os objetos encontrados, reproduzindo alguma prática em seu próprio tempo, prática seja essa relacionada a forma de uso de um objeto ou a marcação à caneta em um livro antigo.

De qualquer forma, para as gerações futuras, é necessário uma capacidade de interpretação mais aprofundada, observando-se a abstração reinante de um mundo mediado pela comunicação digital, quando o aspecto concreto da realidade fica resumido a um quarto quase holográfico de interações possíveis pela tela de um computador.

De meu ponto de vista, um ponto de observação comum e muito provável de uma geração que viveu a mudança de ruptura tecnológica analógica-digital do século XX para o século XXI, as gerações futuras podem perder a experiência de tatear as folhas de enciclopédias de aspirações universais quanto às perguntas e quanto às respostas necessárias a formação de seus conhecimentos letrados. Podem perder a capacidade de experiência pela leitura de uma obra que “transportou” minha geração, por exemplo, para vívidas realidades literárias de um profundo conhecimento humano como os de Dostoiévski, além de outros autores clássicos da literatura universal. Podem deixar de fazer uso da imaginação que lhes possibilite alternativas de interpretações futuras e passadas sem as quais a alienação é o custo menor de toda a ignorância.

Tenho feito pesquisa por naturalidade de buscar respostas desde que me lembro por gente, imagina o leitor a necessidade humana ao longo de uns milhares de anos transcorridos, contando-se a sorte da espécie humana ter origem há milhões de anos atrás. Aliás, se eu penso, penso graças à realidade de um aprendizado paulatinamente feito para a resposta de minha existência, desde concebido, determinando-me por uma evolução de fatos que me trouxeram a um entendimento de quem sou eu no mundo em que transpiro, física e metaforicamente.

Um dos achados do sótão de família foi uma série enciclopédica “História em Revista”, em que um dos volumes tem o título “A era dos reis divinos”, ocupando-se nessa obra de detalhar o período 3000 a 1500 a. C. das grandes civilizações mesopotâmicas, egípcias e Indo-chinesas. É uma edição ricamente ilustrada com um texto estruturado para transportar o leitor à realidade da cultura da época por meio de objetos do cotidiano, como tabuleiro de jogos, por exemplo, e de brinquedos e outras formas de expressões artísticas culturais, como estatuetas votivas, ou de representação de atividades comuns, como o fazer o pão do grão do trigo.

Entre 3000 e 2500 a. C. florescem na região mesopotâmica, na do Vale do Nilo, na costa Mediterrânea e no Vale do Indu, as fundamentais civilizações que servem de lastro à realidade contemporânea, despertando-se com a civilização suméria até a civilização harappense (ver “A civilização de Harappa” em Destaques em Notícias)..

Desta edição, transcrevo um trecho dedicado a esclarecer a região e sua cultura:

“A Suméria, primeira civilização da história, prosperou por volta de 3500 anos a.C. às margens dos rios Tibre e Eufrates, no centro do Oriente Médio. Desviando a água dos rios para irrigar plantações de cereais, os sumérios acumularam riquezas agrícolas e as empregaram na manutenção das poderosas cidades-estados como Uruck, Ur e Lagash. Essas cidades logo estabeleceram laços comerciais com várias partes do mundo antigo (…). Pelas rotas comerciais trafegavam não apenas os produtos agrícolas e os artigos dos artesãos, mas também notícias da maior realização cultural da Suméria: a invenção da escrita. Com o tempo, a influência da Suméria ampliou-se até o Egito, a Asia Menor e mesmo regiões mais distantes.” [*p. 11] 

Imagino o quanto de diversidade cultural desses primeiros séculos das civilizações se encontrava à vista em mercados itinerantes, alojados em regiões diversas por uma sazonalidade de meios de seguir em frente, de maneira propícia e permanente a seus negócios.

Se o leitor tiver a chance de ler o volume citado, poderá perceber que a dinâmica de entendimento das pessoas sobre as coisas são as mesmas de há milhares de anos, os seus desafios de sobrevivência, de lidar com os espaços a que deseja pertencer ou a que está submetido, são os mesmo que nos colocam em condições de igualdade por mais que outras formas de organizar as sociedades tenham sido colocadas em práticas em tempo históricos tão distantes. Mas, sobretudo, a base desses negócios foi feita pelas diferenças culturais mediadas, por necessidades de transformações indistintas, confundidas muitas vezes com animações espirituais alheias à pessoa, intérprete essa de uma gama de mentalidades que compreenderiam a necessidade de um diálogo entre condições recíprocas de respeito, de igual a igual, independentes às expressões individuais de suas culturas.

Figura em bronze: n. 1908,0417.2, AN32433001 do acervo de imagens do Museu Britânico: britishmuseum.org

Também pode-se observar um ambiente social de muita transitoriedade de formas: tendas, animais, plantas e registros. Da Suméria, aliás, encontrou-se uma estatueta feita de cobre com cerca de 4000 anos de idade que, pelo arqueologista Sebastien Rey, pode representar o Guardião do Templo da Antiga Suméria, usado simbolicamente como objeto votivo a delinear o espaço sagrado do templo dedicado aos deuses sumérios em Girsu, protegendo-o das forças sobrenaturais do caos.

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Por sinal, caracteriza-se como uma agulha ou pedra angular destinada a fundamentar o templo de tal maneira a ordenar toda cosmogonia suméria, tão próxima à imagem da deusa egípcia Maat, da Justiça, da deusa Hathor, da representação da fertilidade necessária à civilização que reproduziria um universo feminino por meio de outras deusas tais como Ísis, Bastet, Inanna, Ishtar e Astarte, deusas originadas possivelmente da deusa-mãe pré-histórica Kubaba-Cibeles do norte da Síria, divindades adoradas em santuários com cultos que não precisavam de esculturas religiosas, pelo que, muitas vezes, essas faltavam nos templos, concretizando o lugar sagrado por meio de uma simples pedra ou pilão no centro do espaço destinado, tal qual a agulha que o Guardião segura para demarcar a ordem no caos, e essa era toda proteção divina na vida doméstica invocada em estatuetas de material ou em inscrições de amuletos.

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Esse deus ajoelhado com a coroa de poder com chifres, possuindo um pino de fundação marcado com o nome do divino proprietário do templo e o o selo do governante de sua época, Gudea, deu notoriedade aos “bruxos de oração” sumérios que colocavam a agulha nas fundações dos templos para comemorar a piedade do governante. No entanto, nenhum sacerdote ou escriba, por mais notável que fosse à sua época, chegou a ter sua autoria reconhecida pela individualidade de sua escrita como o foi a Alta Sacerdotisa Enheduana, poeta e primeira autora da literatura universal, da filosofia e da história da ciência, assinando seus escritos à deusa Inanna, hinos que redefiniram os deuses para o Império Acadiano de Sargão, fornecendo uma homogeneidade religiosa aos interesses do rei, constituindo-se de “Hinos Sumérios do Templo”.

 

“Disco de Enheduanna”: Enheduanna aparece representada no centro, com roupas cerimoniais.

Enheduanna, princesa e poeta, de nome a permanecer  como a primeira escritora do mundo com textos atribuídos à sua autoria, foi filha do rei Sargão de Acádia e Alta Sacerdotisa do deus lunar Nana na cidade suméria de Ur.

By © José Luiz Bernardes Ribeiro, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=25367610

Se Maat, da Justiça, entroniza o poder ao faraó egípcio para que possa legislar ele sob à vontade da deusa, parece-me que Enheduana cumpre com seu papel de representação do feminino ao estar, como Alta Sacerdotisa, determinando junto ao rei quais destinos do povo sumério-acadiano. Suas obras InninsagurraNinmesarra e Inninmehusa, traduzidas como “A amante de grande coração”“A exaltação de Inanna “e “Deusa dos poderes temíveis “, são relacionadas aos hinos à deusa Inanna ou Ischtar que, nas divindades fenícias, possuem o nome de Astarte como a de uma deusa ligada à sexualidade, às libações, e ao seu principal culto que ocorria no equinócio da primavera, de celebrações à fertilidade e ao erotismo. 

 Bibliografia citada:

WOODHEAD, Henry. A era dos reis divinos: o despertar da civilização; o caminho dos faraós; o império Egeu; Agitação na Ásia. TIME-LIFE BOOKS. Abril Livros: Rio de Janeiro, 1991. 

Ouça pelo vídeo abaixo a melodia escrita mais antiga que se tem conhecimento até hoje:
Ouça, também, o Épico Gilgamesh, primeira obra a ser escrita na história:
Para ir além:

 

Da pedra ao vaso

 

https://ensinarhistoriajoelza.com.br/a-misteriosa-civilizacao-de-harappa/

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Astarte

https://pt.wikipedia.org/wiki/Enheduana

 

https://www.historia.uff.br/stricto/td/1653.pdf

https://cchla.ufrn.br/espacialidades/v5n4/Josiane.pdf

 

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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