Ritos e Tradições

Os ponteiros do relógio

O céu noturno com os astros percorrendo a abóboda celeste até o alvorecer foi, por milhares de milhares de anos, o palco onde se desenhou o imaginário humano na transgressão de dar significado abstrato para coisas inexistentes, tais quais foram as condições necessárias a ocorrer uma Revolução Cognitiva em seu pensamento primitivo e resultar, com isso, uma mente subjetiva comparativa e condicional (sim/não) que se expressa num lapso de um tempo. 

Em nossas últimas postagens vimos a representação da vida religiosa egípcia na comunidade de escribas que, pelas expressões tumulares ligadas a vida após a morte, desde primórdios, parece se ligar a uma necessidade humana por amparo, também, em outros planos de compreensão que são, muitas das vezes, invisíveis a quem não compreende do que se trata. Daí vimos em “Cosmonauta na criação” o papel de “xamã”, provável intermediador entre o mundo dos espíritos e o mundo dos homens durante todo o Paleolítico, sendo um arcano típico na perspectiva de curar muitas das aflições que ocorrem a qualquer ser humano e em qualquer tempo dizível, posto que vimos a necessidade de um método intuitivo capaz de selecionar aspectos abstratos à interpretação do que só caberia possível a quem soubesse se questionar a partir dos seus resultados atingidos; guiado, então, por novos resultados na percepção de um domínio de significado que apenas a si caberia, numa reflexão interna/externa de si, e, talvez, alheia às crenças das demais pessoas.

Um dos títulos que considero de fundamental importância para a minha formação acadêmica e crítica foi “A Economia das Trocas Simbólicas” de Pierre Bourdieu. Trata-se de uma obra de estudos com uma força ímpar em compreender as relações de sentidos que existem na comunicação humana através do tempo. E dou o exemplo do texto: “2. Gênese e Estrutura do Campo Religioso”; em que Bourdieu nos leva a mergulhar na vida ascética de natureza religiosa nos primórdios das tradições dos ritos, sobretudo, dos círculos mágicos em torno dos quais a tradição é uma linguagem, ou um instrumento de comunicação e de conhecimento, “enquanto veículo simbólico a um tempo estruturado (…) e estruturante, (…) condição dessa forma primordial de consenso que constitui o acordo quanto ao sentido dos signos e quanto ao sentido do mundo que os primeiros permitem construir” (BOURDIEU, 2004, p. 28; sobre Durkheim). [O]

Na sequência, Bourdieu trata das questões da divisão do trabalho religioso com um progresso de moralização e de sistematização das práticas e crenças religiosas, citando transformações tecnológicas de compreensão do sacerdócio, sobretudo, antes das primeiras civilizações até a formação do “corpo sacerdotal (com os interesses materiais e simbólicos que lhes são próprios) e das ‘forças extra-sacerdotais'”, do que vale dizer de exigências de certas categorias de leigos e suas relações metafísicas ou éticas quanto ao profeta. “Desta maneira, o processo moralizador de noções [é] (…) marcado fundamentalmente pela ‘ transferência da noção de pureza da ordem mágica para a ordem moral'”. (idem, p. 37-38.)

Na postagem “Cosmonauta na criação”, a quem não tenha lido,  discorro um pouco sobre a questão da Religião e as civilizações no texto “Um fio condutor”, tratando de uma ligação política entre sacerdotes e reinados, quando o uso do termo “puro”, também citado por Bourdieu, é uma forma de “insígnia” distintiva em razão da atuação de um poder religioso e político que se ajustam pelo sistema simbólico com que tratam suas interações de troca nesse sistema, no qual já há os esquemas de percepção e de pensamento que se somam a uma naturalização do argumento em favor de uma crença, a conhecimento de título de consenso acerca da ordem de um mundo comum.

Arte Mística e Arte Estética

A palavra “gnóstico” ou “aquele que tem um conhecimento especial” tem origem na definição do termo “gnose” que é a experiência mística do Divino diretamente em si mesmo, na realização da uma verdadeira natureza interior cujo sentido não pode ser discernido por intermédio de dogmas ou doutrinas intelectuais, mas somente pela experiência, daí a noção de mística aqui aplicada[1].

Convém, antes de mais nada, refletir no que se conceituava como identidade e consciência no Antigo Egito. Sobretudo, as representações do corpo definidas por representações da mente, em que o eixo fundamental é o coração hati, ou o que está no comando, com o fluxo sanguíneo pelo músculo cardíaco (ib) circular nas veias e artérias, tendo-se que:

Estas representações anatômicas eram a base para a formulação da vida intelectiva. O sofrimento, a morte e mentira são sempre sintomas do esvaziamento da ordem cósmica. Se a maet enchia o mundo com a vida, a plenitude, a verdade e a abundância, o seu oposto, a isefet, ou seja, a “ausência” ou “falta”, manifestava-se na morte, na escassez, na mentira e na corrupção. O sentido da criação residia sempre na plenitude, na ordem, na justiça, em suma, na maet. O bem estava, portanto, na ordem natural das coisas, ao passo que o mal não tinha uma existência absoluta, pois só se manifestava mediante o esvaziamento do bem.

Tal entendimento somado a uma visão que resultava de uma perspectiva “hieroglífica” do mundo em que todas as coisas existentes compunham um texto vivo, o cosmos, no qual cada ser constituía uma manifestação terrena de uma ideia ou plano divino. (Vê-se algo semelhante a Platão? E a vida sendo a expressão de uma longa palavra como descrito por Ptahhotep? [2][3]). Para os egípcios, o mundo era uma superfície para os “hieróglifos” como os seres vivos criados por um deus no “livro” da vida, sendo que ao ser humano se tornava possível uma responsabilidade a mais a esse respeito, já que lhe era permitido criar “hieróglifos” que, por ser inscrições divinas, atuavam no mundo, completando, dessa forma, por meio do sua própria atividade interior/exterior da escrita, a grande obra de Ptah em que o universo mental era originado na mente de um Criador, ato conceptivo cosmogônico que emanava das suas ideias. O deus, então, criador da vida, formula a sua criação pela palavra, que é uma única vontade e consciência “inscrita”. Com uma teologia relacionada à criação cosmogônica por meio da palavra, um culto à inscrição tumular não seria estranho, afinal, a palavra comunicava dimensões distintas pela ideia de que, com a palavra, o sentido e o propósito de sua inscrição estaria completo, mesmo ao além vida [4].

É essa “passagem” que a inscrição tumular propicia ao representar o morto para se encaminhar o homem à luz do dia. Ou seja, é o meio pelo qual um escriba pode caminhar, com dignidade, pela trajetória de uma vida sem que a natureza de isefet interrompa o seu ofício. É desse mistério relacionado ao ofício como algo sagrado que se compõe o par pessoa interna/externamente dada pela ideia de uma atividade individual humana compreendida pelo campo das tradições esotéricas posteriores como uma essência da criação desperta pelos olhos desse duplo corpo [antes-depois] que percorre um caminho de autoconhecimento a fim de construir estudos e fundamentações à sua natureza existencial como a um fio.

O culto em Serápis, por exemplo, celebravam tais mistérios evocados a fim de se obter uma transmutação, a exemplo clássico de “Asno de Ouro”, de Apuleio, ou como no ritual de iniciação ao culto de Ísis, tendo uma origem em Hathor que, em Dendera, numa câmara especial chamada “Câmara de Ouro”, elaboravam-se substâncias sagradas usadas ao culto a uma “Osirificação” do morto, tal qual trabalho alquímico de transmutação dos elementos de instâncias inferiores a superiores, cuja morte simbólica, no caso do mumificado, se torna uma redenção mística por graça de uma divindade, e a continuidade de sua existência pela preservação de seu corpo mumificado é evidência de uma fé em um método de ressurreição após a morte, o ressurreto em tempo futuro.

Desenvolvendo a superação pela arte da transmutação das formas internas/externas.

Descobrimos por meio de artefatos em pedra, em madeira e em couro que, uma vez combinados pelo ser humano, já expressavam um processo produtivo perfeito com métodos técnicos aprimorados durante todo o Paleolítico Médio da Eurásia, por exemplo, indicando uma habilidade cognitiva avançada com noções de pensamento abstrato, além de um raciocínio analógico apurado pela razão de ocupação em multitarefas que demonstram uma fluência cognitiva ou uma capacidade de inovação. Para essa última capacidade, percebe-se uma significativa tendência em se produzir  melhorias com base nos resultados de estimativas iniciais que trazem as primeiras informações compreendidas como formas de crenças, mas que são, na verdade, hipóteses a serem testadas e revisadas de acordo com as evidências da experiência.

Penso na figura de “artesã” do Paleolítico pela qual se pode descrever um exemplo intuitivo de uma “criação” provida de novos elementos da realidade que essa “artesã”, movida por essa capacidade consciente de perceber um mesmo fenômeno formal como algo “novo” transformado por uma série de ferramentas necessárias para se obter outros formatos e usos. Desse processo de criação, muito do que nos resta se encontra expresso pelo universo animal na Arte Rupestre, onde cosmos, a natureza e, essencialmente, também os animais, são o centro do interesse de se retratar figuras como formas de registro em cavernas, uma visão do animal como meio de sentir sua existência, em que o ser humano não se vê.

Aliás, o sentido de “luz” se liga à compreensão de um sentido através da consciência do indivíduo tal qual a ideia estruturalista de que na existência de uma forma, há uma função que se aplica por um uso qualquer dentro de uma estrutura de relações interdependentes, nessa que passa a se tornar uma capacidade de cumprir requisitos, internos-externos, ou protocolos de ações que partem de ideias pré-concebidas como meios de realização. A exemplo disso, foram as formas de se manter os costumes através de narrativas coletivas tal como eu abordo em “Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias” a partir do estudo de Harari, lá citado. A conduta, agora, de uma natureza “plástica-comportamental” pelo entendimento de uma ideia de processo, implica em uma consciência que compreende as relações de trocas simbólicas, no que se torna base constitutiva de conhecimento, qualquer que seja ele.

Aliás, no capítulo “Ciência e Arte no Egito Antigo” de “A Serpente Cósmica: A Sabedoria Iniciática do Antigo Egito Revelada”, de John A. West, encontramos algo importante para se compreender a dimensão de um debate milenar entre Ars et Scientia. Se, durante o Paleolítico o “controle” de signos elementares como os representados pelos animais na Arte Rupestre, expressos como suporte de conhecimento de um matriarcado tribal dominante, é na hierarquização de domínios de conhecimentos que organização centrada em sacerdotes passa a figurar como elemento místico da figura feminina estabelecida como Progenitora de mundos. É, assim, por exemplo, que sacerdotes iniciados nos Mistérios de Elêusis legaram como doutrina esotérica, de qual herdam os conhecimentos de boa parte das tradições esotéricas modernas. E, todas, em comum, dizem se originar de um arcano maior com origem no Antigo Egito. 

Os limites que se conhecem, hoje, entre o que é Arte e o que é Ciência, e de quais são as fronteiras a respeito de conhecimentos técnicos e didáticos, são extremamente recentes se observarmos o decorrer dos milhares de milhares de anos necessários a uma evolução do pensamento técnico-abstrato.

Os Mistérios Eleusinos, por exemplo, datam da Era Axial e, portanto, tem pelo menos dois mil anos, e que fizeram parte alguns pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles. São de origem no culto à celebração do regresso da vida após o Inverno, como sementes levadas à terra de onde a vida vegetal prospera na Primavera. É um culto relacionado a uma vida sedentária, a uma vida no campo, simbolizado pelo lançar sementes à terra e o brotar de novas colheitas, numa espécie de morte e ressurreição. Representa muito dos conhecimentos esotéricos pela ideia de uma história da alma humana, como mito da caverna de Platão, de sua descida na matéria, como no purgatório da Divina Comédia de Dante, de seus sofrimentos em trevas do esquecimento, quando há re-ascensão e volta à vida divina.

Em John A. West, o debate entre arte e ciência no Egito Antigo dispõe em lados opostos a sua abordagem simbólica sobre a arquitetura egípcia da Antiguidade versus o cânone de escritos a respeito da mesma arquitetura egípcia como uma arte, não no sentido esotérico, mas no sentido estético, conforme West traz no capítulo “Ciência e Arte no Antigo Egito”.

Particularmente, penso que a especialização de métodos que se pode compreender com o aperfeiçoamento dos recursos e no modo de os produzir durante o Neolítico, despertou o ser humano para o campo das possibilidades além da experiência mística animal-homem representada à luz de uma grafia rupestre para compreender mais as pessoas do que os elementos naturais como uma grafia feita depois de um Dilúvio representado tal qual ocorre com a “Esfinge” (cabeça de homem-corpo de leão) de que se supõe edificada durante o Neolítico, na Era zodiacal de Leão (lembrar dos céus), sob qual conhecimento a tese de uma relação simbólica de John A. West se inicia, tratando de marcas de níveis de água na Esfinge que podem demonstrar longos períodos em que a Esfinge se encontrava submersa.

Penso que, ao se identificar algo em particular, no que é uma observação sobre uma hipótese, e não uma crença, o que nos define tende a ser hipóteses testadas, e que devem ser revisadas de acordo com as evidências compreendidas por verdadeiras diante de uma experiência, hoje, formal. John A. West exemplifica exatamente esse argumento quanto à experiência que a Arte egípcia pode despertar, e que vai além da questão da fruição, além de um existir como a um testemunho do que seja “belo” para os sentidos humanos e até divinos. Trata-se, na verdade, de um forma de transmitir uma linha de conhecimentos sob a qual toda forma cumpre uma função dentro da arquitetura geométrica dada como sagrada e atingida pelos estudos dos astros no céu. O que se encontra representado pela Arte egípcia para West se põe à necessidade de se comunicar para com um além mundo de que fazem parte as estrelas organizadas em “macroastrologia” de Eras. Esse é, aliás, argumento um tanto comum às manifestações artísticas relacionadas ao Antigo Egito, como a Era de Leão, durante o Neolítico.

Na próxima postagem: a separação da Arte Mística da Arte Estética: 10 mil anos transcorridos.   

Para ir além:

[O] Círculo, forma de. História das formas, um espaço com significado de conter começo e fim, um ciclo, um meio de passagem a significar um domínio ou um conhecimento. Esfera. Ver, também, Platão Redimido – A Teoria dos Números Figurados na Ciência Antiga & Moderna em pdf, do professor Manoel Campos Almeida, citado autor estudado.

[1] GARDINER, Philip. Gnose: a verdade sobre o Templo de Salomão. Editora Pensamento, 2006. Eritis sicut dii scientes bonum et maulum. Introdução.

[2] Discorro sobre o pensamento platônico na postagem “Cosmonauta na criação

[3] Sobre Ptahhotep, recomendo a postagem “Servo no lugar da verdade” e especialmente a palestra em vídeo de Lúcia Helena Galvão, de Nova Acrópole, acessível AQUI 

[4] EM PDF de O TEMPLO INTERIOR: REPRESENTAÇÃO DA CONSCIÊNCIA NO ANTIGO EGITO, de Rogério Sousa, acesse AQUI.

Sobre o autor

Sou pesquisador independente com formação bacharel em Letras, atuando como escritor, editor e produtor de conteúdos web, especializado em Planejamento e Gestão Estratégica, com Docência ao Ensino Superior e Educação à distância (EAD). Sou autor de "Estados de civilidade: uma história sobre tecnologias" (artigos); "Cartilha de Jack & Janis - Uma sátira da vida conjugal moderna" (novela) entre outras publicações.

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